ONTOLOGIA E WEB SEMÂNTICA
Pedro Demo (2009)
I. PARA COMEÇAR
Estou fazendo aqui uma aventura intelectual, e, como toda aventura, também em parte irresponsável. Faço-o premido por amigos que desejam avançar neste desafio das ontologias e aprimoramentos de motores de busca na internet, tomando-se em conta principalmente que se tornou crucial saber lidar melhor com a montanha já indevassável de informação disponível. A internet se parece com um “lixão”, cada dia mais, tornando-se o desafio de buscar informação adequada, avaliar informação existente, superar a desinformação proveniente do excesso de informação, propor modos mais inteligentes de lidar com informação, e assim por diante, uma das discussões mais acaloradas no momento em torno das novas tecnologias. Devo adiantar que, até agora, vejo esta discussão com olhar desconfiado, a começar pelo uso do conceito de ontologia num contexto aparentemente estranho. Embora não seja filósofo, mas tendo estudado algo de filosofia por várias razões[1], sempre observei ontologia como estudo do ser, da realidade em sua profundidade, em geral com tonalidades essencialistas/holistas. Já Aristóteles, porém, apontava para dimensões analíticas da ontologia, à medida que procurava definir seus conceitos analiticamente, ou seja, pela decomposição de suas partes componentes, como corre na definição de ser humano: animal (termo mais geral) racional (termo mais específico). Desenhava-se a pretensão de chegar, pela via da análise, a algum fundo último, ontológica e epistemologicamente simples, e que se mantém até hoje na expectativa modernista da “teoria de tudo” (everything theory) (Gribbin, 1998. Barrow, 1994. Standish, 2006. Horgan, 1997; 2002).
Em termos metodológicos modernistas (Demo, 1999), “análise” representa uma de suas quintessências. Análise provém do termo grego “αναλύειν” - decompor em partes, com a sugestão de que o todo é apenas a montagem das partes, esvaindo-se aí já qualquer noção de “essencialidade”. O método científico formalizante, aquele que Morin caricatura como “ditadura do método” (1995; 1996; 2002), assim procede:
a) as realidades não possuem “essência” que não sejam apenas suas partes;
b) decompondo as partes, damos conta de toda a realidade;
c) sobretudo, nas partes desmontadas descobrimos a realidade, sempre redutível a algo mais simples;
d) esse algo mais simples é também mais real, porque mais invariante;
e) donde segue que a dinâmica é apanhada pelos modos como se repete;
f) explicar a realidade é fazer dela projeção simplificada, simples e invariante, como são, de modo geral, as teorias (Demo, 2000:15).
Ao final coincidem a ontologia e a epistemologia: cabe a uma realidade no fundo simples uma explicação também simples. Em parte, descobertas como a estrutura atômica em química e física (por baixo da realidade física, aparentemente complicada, haveria um código de 92 elementos, que logo se chamaram de “átomos” - indivisíveis, em grego) apontariam para esta direção: não há “essência” última, mas partes últimas. Esta maneira de apreender privilegia a formalização metodológica (só se pesquisa o que se pode formalizar, tomando-se como modelo relações matemáticas), e que teve como um dos aportes mais radicais a antropologia estrutural de Lévi-Strauss (1967; 1976): estudou os mitos através de suas expressões invariantes, destacando sua gramática, não sua semântica e contexto histórico-cultural (Demo, 1995). Tinha como ponto de partida que a mente humana, em particular em seu inconsciente, é marcada por estruturações invariantes, de tal sorte que suas expressões localizadas e históricas não teriam maior importância explicativa. Exacerbando esta visão, pode-se alegar que um texto não se entende por sua significação, mas por sua gramática tendencialmente invariante. Esta perspectiva, por mais que se apresente unilateral, encontrou ultimamente uma pareceria superlativa: a digitalização. Esta é uma gramática seqüencial, algorítmica, invariante, lógica, precisa. De alguma forma, as significações, por girarem em torno dela, seriam sucursais. Não haveria essência, porque o “essencial” é código, ou seja, essência nenhuma. Bogost (2006) chama a isto de “operações de unidade” (unit operation), um modo procedural de organizar a informação através da digitalização, o que permite, entre outras coisas, separar uma imagem em pedaços e, assim, manipular convenientemente.
Como se percebe, esta discussão é incomodamente “torta”, tal qual se pode também observar nos textos em torno de “ontologia” e “filosofia analítica” (Chaves, 2009. Ontologia, 2009; 2009a; 2009b), acrescendo-se ainda o ridículo de que, propondo-se a clarificar o mundo confuso da informação disponível, em especial suas ambigüidades e superposições, aborda-o pela via da confusão semântica mais ou menos alegre: não só é difícil “definir” ontologia tal qual é usada na filosofia, como é uma tortura encontrar alguma clareza em como é definida na ciência da computação. Parece que o termo “ontologia” acabou aceito porque teria algum “charme” especial, jamais bem designado, e no momento atribuído mais especificamente à “filosofia analítica”, também, porém, um saco de gatos (Filosofia Analítica, 2009). Na Wikipedia todos esses termos não conseguiram um mínimo de consenso, o que bastaria para expressar a perplexidade geral. Tomemos uma formulação constante na Wikipedia: “Em Ciência da Computação e Ciência da Informação, uma ontologia é um modelo de dados que representa um conjunto de conceitos dentro de um domínio e os relacionamentos entre estes. Uma ontologia é utilizada para realizar inferência sobre os objetos do domínio” (Ontologia, 2009). Que um “modelo de dados” seja “ontologia” já soa estranho, já que, em muitas filosofias, ontologia não é modelo, mas a realidade como tal. Entrando em cena a pretensão da “inferência”, insinua-se que o forte da idéia é modelo formalizado lógico, permitindo sequenciar partes interligadas, na expectativa de evitar ambigüidades. Nos contextos hermenêuticos, tomam-se ambigüidades como naturais e próprias da dinâmica semântica, já que nenhum conceito pode ser definido sem supor outros conceitos ainda não definidos. Este círculo é, ao mesmo tempo, lógico (conceitos remetem-se logicamente a outros conceitos) e hermenêutico (toda significação depende de significações prévias elaboradas na linguagem), de onde seguiria ser um intento pouco promissor acabar com ambigüidades. A própria discussão sobre ontologia tem esta cara: é ambígua irreparavelmente.
Esta noção recende a positivismo bastante flagrante, porque acaba sugerindo que o processamento digital formado por códigos invariantes seria a “essência” (ontologia!) da informação. Tem parentesco, sem dúvida, com “filosofias analíticas”, naquilo em que expressam a expectativa de que a linguagem humana deve ser abordada pelas formas gramaticais seqüenciais e recorrentes, não pelas dinâmicas hermenêuticas. Pode-se, desde logo, objetar que na gramática não está a linguagem toda, nunca. Bastaria alegar o fracasso dos softwares de tradução: podemos inserir no computador todos os termos de uma língua, muito além do que poderia abarcar a mente humana, mas, nem por isso, o computador saberia, por exemplo, “falar” inglês. “Falar” inglês supõe a dinâmica semântica que apanha expressões culturais, idiomatismos, duplos sentidos, ambigüidades de significações, modos de dizer e entender, etc. Por isso mesmo, aprender bem inglês só pode ser feito vivendo em um país de fala inglesa, para ocorrer mínima inserção cultural. A saída honrosa para a ciência da computação sempre foi privilegiar a linguagem especializada (do experto), de estilo acadêmico, mais próxima de usos invariantes, também porque estes são impostos pelo método científico. Mesmo aí, porém, considerar um texto teórico como simples expressão gramatical, ignoraria sua inevitável “multiculturalidade” (Harding, 1998; 2006). Neste sentido, imagino que “ontologia” esconde a esperança positivista de que, à imagem da digitalização, a linguagem poderia, ao final, restringir-se a um código não ambíguo, sendo este a “essência” dela, ainda que, sendo código, é essência nenhuma (é pura forma).
Paga-se um tributo não só ao “digital”, mas igualmente ao método científico modernista (Haack, 2003), à medida que o trabalho de “formalização” se impõe como trator, retirando do objeto toda e qualquer particularidade, subjetividade, ambigüidade, propriedade, multiculturalidade. Ao final, trata-se de realidade sem sujeito, assassinado este em nome da objetividade e da neutralidade que toda forma implica. Não sugiro aqui que informação pressuponha um sujeito que informe e seja informado, porque posso bem engolir que a natureza como tal (sem ser sujeito no sentido antropomórfico) maneje informação como uma de suas dinâmicas centrais (Wolfram, 2002. Gardner, 2007). Não caberia mais um olhar antropocêntrico na informação, pois o ser humano, antes de ser qualquer coisa especial, é apenas natural. No entanto, a ambigüidade - em geral trabalhada pelo conceito de complexidade não linear (Demo, 2002) - também comparece na natureza, pela razão de que dinâmicas “realmente dinâmicas” são naturalmente ambíguas. Se não fossem, não seriam produtivas, mas apenas reprodutivas. A natureza precisa da ambigüidade para processar uma variedade infinita de seres que vão se desconstruindo e reconstruindo. Diriam alguns, portanto, que a dinâmica é a constante, não invariantes formais (Massumi, 2002). Estas são referências fundamentais, mas nelas não vive ninguém. No plano existencial, contam os códigos, claro, mas principalmente os modos próprios de existir e que jamais podem ser “inferidos” dos códigos (Dyson, 1999. Ridley, 1999). A digitalização mostra o quanto a formalização gramatical é importante para a linguagem, bem como que esta rigidez algorítmica não impede o vulcão hermenêutico dos textos multimodais, sugerindo a convivência natural entre dimensões lineares e não lineares (Hayles, 2008).
II. DISCUSSÕES DE FUNDO
Esperando não estar exercitando, a meu modo, o “método confuso”, passo rapidamente por algumas polêmicas de fundo que poderiam aclarar noções e espaços. Embora seja, para mim, termo estranho, ontologia aponta para um entendimento de realidade que a toma como partes classificáveis analiticamente falando. A informação se torna inteligível pela vida da classificação analítica, em geral reconhecida como necessidade lógica normal para dar conta da realidade multifacetada. Se não classificamos as coisas, não as entendemos, nem sabemos lidar com elas. Por exemplo, para lidar com serpentes, é fundamental classificar as espécies, venenosas e não venenosas, úteis ao meio ambiente ou não, próprias como animais de estimação ou decoração, etc. Sem isto, além de não saber lidar com elas, corremos riscos de sucumbir a seus venenos e artimanhas. Tem-se, ao fundo, a visão modernista exaltada por volta da metade do século XIX, quando se formularam campos científicos como química, física e biologia. A descoberta de que por baixo da realidade aparentemente embaralhada haveria um código simples de átomos, do qual se poderiam “inferir” todas as expressões reais, motivou a expectativa de que toda realidade seria, ao final, simples e que a revelação desta simplicidade decorre de um trabalho analítico tipicamente lógico. Esta visão é calçada fortemente pela formalização matemática e pelo experimento em laboratório, cuja expressão maior hoje é o computador. Sugere-se que a pesquisa “descobre”, não “constrói” a realidade (Lesh & Doerr, 2003), assim como dir-se-ia que o matemático explicita as formas matemáticas, não as inventa. Popper (1959) também usa esta terminologia em sua obra principal: “Lógica da descoberta científica” (Demo, 1995).
Em parte, o método científico, de estilo lógico-experimental, tem esta pretensão: afastar as variabilidades do fenômeno, ficando com os traços essenciais invariantes, a ponto de que todo pesquisador, independente de espaço e tempo, chegaria aos mesmos resultados. Darwin contribuiu muito para este esforço analítico, ao retirar do ar qualquer hipótese divina para o surgimento do fenômeno humano, à medida que o tornou apenas analiticamente natural, dentro de uma gramática da natureza. Versões mais interessantes do pós-modernismo, no entanto, questionam esta maneira de ver a natureza, em especial após a noção de “dialética da natureza” de Prigogine (1996. Prigogine/Stengers, 1997): em toda dinâmica há código (modos como se repete), mas há igualmente eventos criativos, sem os quais não haveria dinâmica no plano da existência. À tradição modernista da percepção linear da realidade linear acrescenta-se atualmente outra que mescla dimensões lineares e não lineares. Uma das referências mais apontadas é a da linguagem humana. De um lado, de toda língua existe uma gramática, ou seja, nenhum povo elabora sua linguagem sem estruturações tendencialmente invariantes, o que já bastaria para se chegar à suposição de que a mente humana também abriga códigos. De outro, nenhuma língua é igual à outra, mesmo usando códigos similares/iguais, assim como seria impossível que um povo elaborasse a mesma cultura de outro. Assim, a mente humana detém dupla expressão: trabalha bem com códigos formais pela via da padronização do que percebe; trabalha não menos bem com variações existenciais, aparecendo aí a criatividade própria de toda cultura/língua.
O método científico aprecia a parte codificável, porque cabe melhor em sua expectativa metodológica (matematizável, mensurável, controlável). Embora seja unilateral aparentemente, não cabe ignorar o êxito extraordinário desta maneira de lidar com a realidade física, bastando lembrar que as tecnologias surgem deste tipo de labor. As tecnologias humanas, desde a roda até ao computador, são lineares, recorrentes, repetitivas, nisto também controláveis e confiáveis. Ninguém subiria num avião “não linear” ou que fosse dotado de “subjetividade”... No entanto, as tecnologias naturais admitem a linearidade e a não linearidade, como ocorre sintomaticamente com a mente humana: de um lado, é matéria (massa cinzenta), tratável fisicamente como qualquer outra; de outro, produz pensamento (algo não material), pela via da “emergência” (há depois mais do que havia antes) (Edelman & Tononi, 2000. Jensen, 1998. Morowitz, 2002). O pensamento é um “produto” sui generis, porque sempre marcado por ambigüidades de expressão, nunca exato e seqüencial, maleável, também imprevisível e incontrolável. Muitos diriam que para saber pensar há que se ter liberdade de expressão, o que já afastaria um pensamento como mera reprodução codificada. Edelman & Tononi colocam a pergunta: “como a matéria se torna imaginação”...
Na dialética da natureza, no entanto, não há aí nada de surpreendente, porque não passa de dinâmica natural. O “espírito” é dimensão material, como a “matéria” dimensão espiritual. Para nossa discussão, seria o caso relevar a ambigüidade natural da informação, por conta da tessitura complexa não linear da mente e da linguagem. Tomando como exemplo a pesquisa de Lewis et alii sobre o amor (2000), parte-se da hipótese de que o cérebro é “triúno”, ou seja, composto de três camadas principais superpostas ao longo do processo evolucionário. A primeira é a reptiliana, própria dos répteis, preocupada como a sobrevivência da espécie, defesa contra predadores e trato com riscos em geral, tendo como uma das referências básicas o medo como defesa. A segunda é a límbica, mais própria dos mamíferos, capaz de expressar envolvimento afetivo com os filhos e pares, implicando processos bem mais complexos de relacionamento entre progenitores e a prole. A terceira é a neocortical, considerada a parte racional e intelectual. Como dizem os autores, o cérebro é certamente uma maravilha natural, mas como toda construção natural possui, além de limites próprios da existência contingente, estruturação ambígua: as três partes não falam a mesma linguagem facilmente, o que torna o amor um desafio tipicamente não linear. O amor possui certamente seus códigos, mas vive sobretudo de suas paixões muito complicadas. A gramática social não é suficiente para dar conta das contradições da vida em sociedade, assim como toda gramática de uma língua não dá conta da língua concretamente falada. Não cabe desprestigiar o lado formal, até porque seria inconseqüente desprezar a digitalização, um procedimento avassalador no campo da informação. Não cabe, porém, desprestigiar a ambigüidade da informação. O ser humano comunica-se num campo de forças emaranhadas de significados, no qual se disputam entendimentos complexos não lineares, irredutíveis a procedimentos completamente precisos. Por isso, a mente entende sentidos duplos, acomoda informação mal feita e entende pelas entrelinhas, compreende silêncios e ausências, orienta-se por sinais fracos, meneios e insinuações, depreende significações no lusco-fusco ou nas áreas de sombra, distingue entre o que se diz, não se diz e queria dizer-se apesar do que se disse, interpreta e reinterpreta.
Para sociólogos, haveria que falar da “politicidade” da informação, na esteira de Foucault e da Escola de Frankfurt (Demo, 2002a), expressando a dialética da natureza potencializada na mente humana. As pessoas produzem informação para desinformar, falam mais para influir do que para comunicar, comunicam-se para ocupar espaço mais do que para conviver, discursam para persuadir e convencer, disputam argumentos e contra-argumentos. Se informação fosse apenas forma, reproduzir seria sua sina. Mas como é parte da existência, torna-se dinâmica política também, algo que Habermas desprezou ao repelir a comunicação “estratégica” (Rivera, 1995). Foi, por isso, muito criticado por sociólogos (Sfez, 1994. Bourdieu, 1996; 1996a), já que é difícil engolir que a comunicação possa isentar-se de campos de força minados pelas dinâmicas de poder. Politicidade não pode ser tomada como algo espúrio, intrometido, mas como dimensão natural da natureza, no sentido dialético da unidade de contrários: toda realidade é uma unitas multiplex, permeada de traços lineares e de dinâmicas não lineares também convulsionadas. Destas advêm as mudanças, evoluções, revoluções... Todo entendimento pressupõe possibilidade concreta de não entendimento, assim como se pode afirmar que não se entender também é um modo de se entender. Esta ambigüidade mora na alma da comunicação, convivendo bem com sua estruturação codificada. Por ser tecnologia tipicamente linear (pelo menos por enquanto), o computador trabalha a dimensão formal, com perícia confiável e muito produtiva. Mas seria pobreza lancinante postular que a “ontologia” da informação fosse apenas código...
A propósito, é pertinente aduzir a argumentação de Hofstadter
(2001:28): “Ninguém sabe por onde passa a linha divisória entre o comportamento
não inteligente e o comportamento inteligente; na verdade, admitir a existência
de uma linha divisória nítida é provavelmente uma tolice. Mas, certamente, são
capacidades essenciais para a inteligência: responder
a situações de maneira muito flexível; tirar vantagens de circunstâncias
fortuitas; dar sentido a mensagens ambíguas ou contraditórias; reconhecer a
importância relativa de elementos de uma situação; encontrar similaridades
entre situações, apesar das diferenças que possam separá-las; encontrar
diferenças entre situações, apesar das que possam uni-las; sintetizar novos
conceitos, tomando conceitos anteriores e reordená-los de maneiras novas;
formular idéias que constituem novidades. Aqui nos encontramos diante de um
aparente paradoxo. Por sua própria natureza, os computadores são as criaturas
mais inflexíveis, incapazes de desejar e obedientes às regras. Por mais rápidos
que possam ser, são também, ao mesmo tempo, a síntese da inconsciência”. Transparece
nesta visão o apreço pela dimensão semântica, que se torna tanto mais sedutora
por espelhar-se em autores como Gödel, Escher e Bach: sua criatividade
reconhecida brotava da rebeldia que não cabia
Dificilmente, porém, teremos alguma conclusão mais consensual em torno da inteligência, também pela razão de que esta definição é profundamente circular: são mentes inteligentes que definem o que é inteligência! Bastaria notar, entre outras querelas, divergências sobre se consciência é atributo decisivo da inteligência ou não. Tudo se torna tanto mais complicado, quando se questiona se consciência é apenas a forma reflexa (consciência que sabe que é consciente) e que redundaria num possível antropomorfismo: em geral, supõe-se que apenas o ser humano teria esta capacidade. Como não há linhas estanques, a outros ocorreria que seriam divisáveis níveis mais ou menos conscientes em outros animais, do que serviria como exemplo instigante a pesquisa de Waal (2000) sobre “políticas de chimpanzé”, indicando que esses animais demonstrariam comportamentos perceptivelmente “políticos” no sentido da construção de estratégias individuais e coletivas de poder. Tornou-se conhecida a argumentação de Dennett (1995; 1996; 2003) em torno da evolução da consciência, em especial a alegação de que por trás da consciência haveria bilhões de anos de inconsciência, ou seja, a consciência não é uma propriedade isolada, saída do nada, mas evolucionária como qualquer outra. Hayles (2005) aproveita-se desta argumentação para sugerir que, por esta via, não seria estranho que o computador um dia se tornasse inteligente, finalmente realizando a promessa apressada de Kurzweil (2005). Se a consciência emerge de dinâmicas inconscientes, talvez o silício pudesse um dia dar este salto que somente a massa cinzenta hoje faria...
Não tenho qualquer condição de sugerir alguma tendência mais promissora, a não ser a polêmica não resolvida (ainda!). Pode ser que a distinção entre sintaxe e semântica seja mais inventada do que real, já que toda dicotomia tem sido desbancada, como aquela entre espírito e matéria. Já em 1999, Kurzweil falava de “máquinas espirituais” (Kurzweil, 1999. Richards et alii, 2002). Estamos, porém, acostumados a contrapor forma e conteúdo, estrutura e existência, vendo no lado formal invariantes estruturais, com a tendência de considerar a existência uma expressão menos importante, por vezes, quase decorrente. Seria o caso lembrar a argumentação forte de Marx em seu “testamento metodológico” (1973) em favor da infra-estrutura econômica como fator explicativo decisivo, em última instância (Demo, 1995), deixando em segundo plano, incisivamente, a iniciativa humana nas mudanças históricas. Althusser aproveitar-se-ia disso para cunhar a expressão “velho Marx”, insinuando que este se tornou “científico”, enquanto o “jovem” ainda exalaria um tipo de dialética excessivamente subjetivista. De fato, o método científico modernista sempre tendeu a exaltar dimensões formalizáveis da realidade, a ponto de considerar real apenas o que seria formalizável (Demo, 2004). A discussão sobre ontologia detém este laivo muito claramente.
III. WEB SEMÂNTICA
Fala-se também de “web semântica”, por vezes de web 3.0, fase para além da web 2.0, acenando-se para modismos sem fim (Funk, 2009. Harris, 2008. Kilian, 2007). Parece-me, porém, que a noção de web semântica assinala um nível mais tratável da questão, ainda que a expressão detenha um tom contraditório também: tratando-se de “web” como produto digitalizado, não caberia propriedade semântica, por ser tipicamente sintático. Há autores que revelam tratar-se apenas de metáfora (Alesso & Smith, 2009): visa-se inventar motores de busca mais próximos do manejo semântico da informação, alargando-lhes o alcance em si linear. Tipicamente, Alesso & Smith mantêm como pano de fundo de sua análise as figuras de Berners-Lee, Gödel e Turing, procurando imaginar uma web “inteligente” (2009:XIII). A pretensão parece-me exagerada, no entanto, à medida que se postulam habilidades tais como: aprender, assimilar informação, organizar e processar dados, aplicar conhecimento para resolver problemas complexos (Id.:XVI). Entretanto, torna-se mais modesta, quando se pergunta o que seria “decidível”, solúvel na web (à sombra de Gödel), ainda que se use o termo “empoderamento” da informação (Id.:3 ss).
Segundo Alesso & Smith, pensar inclui um “processo complexo que usa conceitos, suas inter-relações e inferência ou dedução, para produzir conhecimento novo”, algo que se gostaria de aplicar às máquinas. Não deixa de ser pertinente a alegação de que inteligência sofre mutações pouco coerentes se aplicada à máquina ou ao ser humano, por exemplo: quando uma criança faz cálculos matemáticos rapidamente e bem nos impressionamos, mas não ao tratar-se do computador... A mente humana calcula devagar, não dá conta de âmbitos pesados de informação, possui memória curta e pequena, embora tenha a vantagem de ser memória orgânica plástica. Tendemos a ver inteligência em processos não lineares como aprendizagem, marcados pela habilidade semântica de desconstrução e reconstrução hermenêutica ou autopoiética (Maturana, 2001). Esta habilidade estaria ainda distante da atual máquina, apesar das promessas de Turing. Gödel abala fortemente a expectativa de Turing: “De fato, algumas opções para a lógica da web incluem soluções que não podem ser efetivadas através de argumento racional. Em particular, o trabalho de K. Gödel identificou o conceito de não decidibilidade, no qual a verdade ou falsidade de algumas afirmações podem não ser determinadas” (Id.:21).
Na percepção de Turing, ontologia tende a ser vista como “documento que define as relações entre termos. Uma ontologia típica para a web consiste de uma taxonomia e um conjunto de regras de inferência” (Alesso & Smith, 2009:55). Reaparece aqui ontologia como formalização, sugerindo-se que, ao fundo da realidade, prevalece a forma, não sua existência. Levando-se a sério esta expectativa, fala-se, então de “software agents”: agentes de software, no sentido de programas dotados de iniciativa própria presumivelmente inteligente... Já Berners-Lee flexibiliza enormemente esta expectativa: “Uma ontologia pode ser definida como um acordo entre agentes para auxiliar na interpretação da informação intercambiada. Tal acordo proporciona informação necessária para interpretar a estrutura e entender os dados intercambiados e o vocabulário que é usado nessas trocas. Usando uma ontologia, os agentes podem intercambiar quantidades vastas de dados e consistentemente os interpretar. Ademais, podem inferir nova informação aplicando e estendendo as regras lógicas contidas na ontologia” (Id.:70). Esta visão surpreende, primeiro, porque não se acanha de ver em ontologias um “acordo” interpretativo que, mesmo estabelecendo regras formais de inferência, dependem de postulações prévias acordadas. Segundo, têm por objetivo arrumar os dados de tal forma que permitam uso e acesso amplo, consistente, dentro das regras lógicas negociadas. Na prática, a ambigüidade natural da informação é tratada pela via de acordos menos ambíguos, fixando-se em classificações assumidas previamente.
Mesmo mantendo-se a noção forte de “agentes” da web semântica, no sentido de poderem realizar tarefas bem mais sofisticadas de busca de informação, comunicando-se entre si, enriquecendo seu modo de processar e armazenar dados, superando alguns contextos ambíguos, concede-se que, “na maioria dos casos, os agentes irão simplesmente coletar e organizar informação” (Id.:83). Na prática, porém, fica no ar se será possível penetrar na semântica dos dados (sua significação hermenêutica e naturalmente ambígua). O desafio parece outro e bem mais modesto, ainda que tecnologicamente muito exigente: dar conta da avalanche de informação que já desinforma, implicando estratégias mais efetivas de busca, seleção, avaliação, processamento, uso de informação.
A literatura sobre web semântica é muito díspar, variando entre extremos da formalização matemática (tratamentos estocásticos de dados disponíveis) (Taniar & Rahayu, 2006. Bruijn et alii, 2008. Davies et alii, 2006) a aproveitamentos mais suaves de tom sociológico (Mika, 2007). Parece-me que ronda no ar a insatisfação em torno da inteligência artificial (que não apreende dimensões não lineares da comunicação/informação), bem como da dificuldade cada vez mais constrangedora de dar minimamente conta do lixão chamado internet, onde se encontra tudo e nada. Ocorre-me também que muitas visões quer-se extrair da digitalização o que não lhe seria próprio, ou seja, emergências semânticas, em parte manifestando um visível desgosto pela ambigüidade natural da informação. Este positivismo disfarçado retoma temas já obsoletos na metodologia científica, ao exumarem expectativas sobre neutralidade/objetividade e mesmo verdade. Se lembrarmos que “cinza é a cor da verdade” (Kosko, 1999) (uma maneira diferente de dizer que toda verdade tem “dono”), ou que “verdade é pretensão de validade” (Habermas, 1989), informação nunca é expressão da verdade, mas de disputas em torno da realidade ao final indevassável (Demo, 2002a). A própria auto-referência autopoiética da mente humana (Maturana & Varela, 1994) garante que, por mais formalizada que seja uma informação, seu entendimento se dá pela via da reconstrução mental datada e localizada, não da reprodução invariante. Este reconhecimento não desmancha as dimensões formais da realidade e de nossa mente, e que são fundamentais para padronizar dinâmicas, mesmo que, com isso, as deturpemos em grande parte (Massumi, 2002). Os processamentos digitalizados emanam esta mensagem muito forte: por trás da semântica há sempre uma gramática. Enquanto não se dá conta da semântica, é importante avançar na sintaxe, extraindo dela tudo que se poderia imaginar pertinente para aperfeiçoar as buscas. Neste sentido, diria que a web semântica apenas aprimora sua sintaxe. Mas já é muito bom.
Renova-se, assim, o sonho de um “outro” computador talvez “quântico” (Brown, 2000), sem falar em teorias que buscam explicar o mundo pela via da computação (Wolfram, 2002. Gardner, 2007), dando a entender que a emergência da inteligência linear para a não linear é apenas questão de evolução. Esta argumentação me parece límpida, primeiro, porque não cai na armadilha de dicotomias que estão em querelas mentais, não na realidade natural, e, segundo, porque a natureza expressa ambos os níveis, sempre recíprocos e conviventes. A máquina que temos hoje processa linearmente informação, respondendo, assim, com grande perfeição, à dimensão formal. Mas, em si, não haveria impedimento fatal para saltos evolucionários, dos quais a natureza é testemunha renitente. De fato, há um problema de “material” ou hardware. Enquanto as tecnologias humanas são lineares (tecnologia do silício, por exemplo), as naturais conseguem ir além, abarcando a formação de materiais muito mais sofisticados como “massa cinzenta” em nosso cérebro (“meatware”). Como esta, porém, provém da mesma matéria geral, em si seria pensável um dia produzi-la pela intervenção humana. Será? Se assim fosse, aí sim seria viável a web semântica...
PARA CONCLUIR
“Concluir” é outra falsa promessa. A rigor, não resolvi nada, a não ser explicitar alguns contextos conceituais e reconstruí-los em panos de fundo diversificados, para mostrar origens que esclarecem procedimentos. Se pudesse, abandonaria o termo “ontologia” porque é uma invenção forçada e improdutiva, sem falar que não vale a pena carregar nos ombros tradições filosóficas já surradas. Web semântica também é algo contraditório, em especial quando se alude a “agentes” que seriam inteligentes a ponto de saberem entender informação. Não vão, porém, além de arrumá-la de maneira mais adequada para buscas mais efetivas. Web 3.0 cheira a modismo tolo, já que, sendo web 2.0 também em parte modismo, daí para frente se perde num linguajar pouco responsável, restando apenas um certo advertising consumista. A discussão, contudo, detém um lastro muito importante e que não poderia ser confundido com chutes ao léu. Trata-se de aprimorar estratégias de busca (motores de busca) que facilitem encontrar informação de maneira rápida e adequada, evitando-se ambigüidades e redundâncias. Estas não são propriamente evitáveis, porque fazem parte da dinâmica da informação, mas, retomando a idéia de Berners-Lee, com “acordos” formais e bem formalizados, seria possível armar um contexto de inferências mais profundas e aproveitáveis, sobretudo mais confiáveis e controláveis.
Estamos literalmente afogados em informação. É tanta que já desinforma. Precisamos saber dominar esta criatura que parece engolir o criador. Preocupa também a montanha de frivolidades que aparecem na internet, tornando-se constrangedor chamar a tudo isso de “informação”. Informação é termo muito prostituído (Pink, 2005. Brown & Duguid, 2000. Hassan, 2008). Muitas vezes, pouco tem a ver com informação, já que, mesmo não sendo por ventura plágio, referencia-se a conotações tão banais que não deveriam merecer a atenção. Notáveis promessas da internet - como a de colocar todo mundo em comunicação facilitada e multiplicada, de incitar autorias através das plataformas da web 2.0, de criar novos mundos virtuais de criatividade crescente, de propor novas chances lúdicas e novas comunidades intensas - conspurcam-se no contato diário com fluxos marcados pelo consumismo, banalizações, plágios e cópias, quando não de abuso das liberdades na web. É claro que a internet nunca foi esta maravilha toda, até porque suas origens sempre estiveram próximas ou imersas em contextos liberais de mercado, no qual o jogo sujo é a regra (Benkler, 2006. Liu, 2004. Gee et alii, 2003). No entanto, maravilhas como a Wikipedia não encobrem os assaltos do advertising explícito e implícito, o consumismo devastador, o uso malévolo e ilegal, o aproveitamento reprodutivo na escola e na universidade. Assim, propostas de aprimoramento da busca/avaliação/uso de informação precisam ser saudadas como iniciativas dedicadas a qualificar uma das inovações mais sensacionais dos últimos tempos.
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[1] A razão maior é o contexto filosófico natural da metodologia científica (epistemologia, filosofia da ciência), espaço em que tenho muitas publicações (http://pedrodemo.sites.uol.com.br/livros). Como tive formação de seminarista esticada até ao 3º ano de teologia, filosofia também fez parte do cardápio.