CONHECIMENTO
REBELDE E ENQUADRADO
- Novas
epistemologias virtuais à luz da história da wikipedia -
Pedro Demo (2009)
A wikipedia
começou em 2001. Em oito anos de existência, tornou-se uma enciclopédia “livre”
de porte incrível (Wikipedia, 2009), congregando a dedicação de milhares de
pessoas gratuitamente para editar textos sob a égide da liberdade de expressão.
O mote central era: “Todo mundo pode
editar”, sinalizando liberdade irrestrita de autoria individual e coletiva
– no plano individual, todos podem apresentar seu texto e/ou fazer mudanças nos
textos existentes; no plano coletivo, nenhuma autoria individual é soberana,
valendo o texto coletivamente urdido e sempre aberto. Havia a expectativa, em
geral fundada na proposta de “crowdsourcing”
(Howe, 2009) ou de “smart mob”[1]
(Rheingold, 2002. Tapscott & Williams, 2007), de que o concurso de uma
massa crítica numerosa produziria, em sua própria dinâmica e sem hierarquias,
conhecimento de suficiente qualidade (Lih, 2009. O’Neil, 2009). Por trás está
uma teoria biológica da “emergência”, segundo a qual a natureza constrói e
reconstrói novos seres e dinâmicas a partir de estágios anteriores menos
sofisticados, em parte chamados pelos internautas de “remix” (Weinberger, 2007.
Latterell, 2006). Assim teria surgido a vida em suas múltiplas formas, bem como
da massa cinzenta surge pensamento: “emerge” de uma base material para aparecer
como dinâmica imaterial (Edelman & Tononi, 2000). De algo mais simples pode
resultar extrema complexidade (Wolfram, 2002), e sem comando central (Johnson,
2001. Holland, 1998. Wright, 2000). Do caos pode provir ordem, como sugere
Holland, em processo de criatividade crescente, ainda que a natureza, em si,
nada “crie” do nada. Ela cria do que já existe, ou seja, reconstrói indefinidamente.
Esta expectativa faz parte da construção da wikipedia, referenciada também como
“efeito-piranha” ou “stigmergy”[2],
categorias da pesquisa biológica para descrever o comportamento de vespas e
cupins, quando constroem coletivamente estruturas complexas; o produto do
trabalho prévio, ao invés de comunicação direta entre os construtores, induz e
direciona como tais insetos realizam trabalho adicional e sem comando central
de cima para baixo. Ocorreria algo similar na wikipedia: cada editor retoma o trabalho
anterior e assume aí um direcionamento para continuar, redundando, ao final,
num texto aprimorado.
De posse de
um software (Wiki) que faculta edição livre de texto e apostando em tais
expectativas teóricas, a wikipedia iniciou uma façanha inédita e estrondosa,
apresentando por volta de 2008 dez milhões de textos em mais de 200 línguas.
Nesse tempo, ocorreu uma fábrica excitada e incomensurável de textos, mostrando
o lado fantástico da cooperação humana, a ponto de alguns teóricos verem aí um
“novo modo solidário de produção” (Benkler, 2006). Sendo gratuita a contribuição
na wikipedia, chama a atenção que tanta gente encontre motivação por vezes
devota e desinteressada a este empreendimento coletivo. No entanto, as
promessas de liberdade de expressão foram, aos poucos, sendo restringidas, em
parte por causa de seus abusos (o preço da liberdade é seu abuso), em parte
para organizar melhor o processo produtivo e garantir padrões mínimos de
qualidade acadêmica. A rebeldia do conhecimento se submeteu crescentemente a
ritos de enquadramento, sugerindo que a wikipedia também expressa ambigüidades
comuns a projetos coletivos que se querem libertários: forjados para captar e
potencializar a contribuição livre de todos, somente avançam e se consolidam
sob crescente regulação da participação, das atividades e das instituições. O
exercício coletivo da liberdade implica seu cerceamento, em nome do bem comum.
Uma clássica “unidade de contrários”...
Neste texto
procuro analisar esta peripécia extraordinária, ressaltando inovações
espetaculares e traições comuns em práticas libertárias que convivem,
ironicamente, com autoridades indiscutíveis. Depois de oito anos, o mote “todos
podem editar livremente” já tem validade muito relativa; para muitos já sequer
vale, tamanhas são as regras impostas entrementes a quem quer ser editor. Mesmo
assim, isto não destrói a beleza do projeto, embora revele, à revelia, o drama
da liberdade de expressão, essencial para o conhecimento questionador: desde
que a rebeldia tenha alguma proposta concreta, ao pôr-se a realizá-la, deixa de
ser rebelde; de fato, quem propõe mudanças, não as pode gerir! Toda proposta
crítica, ao instituir-se, vira paradigma e, como tal, decai para a história que
passa e ultrapassa. A wikipedia ainda é um furacão, mas está perdendo fogo,
visivelmente.
I. PROMESSAS
A wikipedia
conclama a sociedade em geral para produzir conhecimento. Nunca se viu isto
antes, porque produzir conhecimento sempre foi atividade reservada, preservada,
censurada (Shattuck, 1996. Rescher, 1987), tendo como patrulheiros os
especialistas e as entidades que os abrigavam. Relembrando o relato do Gênesis,
sobre o “pecado do conhecimento”, a mensagem era similar: quem sabe pensar está
acima dos outros e pode até mesmo rebelar-se contra seu criador. Conhecimento
seria, em si, uma centelha divina que perdura na mente humana, mesmo depois do
pecado. Os “representantes de Deus” foram, no modernismo, substituídos por
representantes do conhecimento, tendo como pastores maiores os doutores e como
igreja central a universidade (Collins, 1998. Demo, 2004. Andrew, 2009).
Conhecimento é energia tão fundamental e disruptiva que a sociedade se preocupa
também em domesticá-la, já que se teme a quem sabe pensar, porque saber pensar
não é só questão de inteligência, é também de poder. Não se teme a um pobre com
fome, que facilmente se acomoda ao receber comida. Teme-se a um pobre que sabe
pensar, porque questiona o sistema que o faz pobre. Este “contra-poder” aparece
na história humana em iniciativas de excluídos que conseguem confrontar-se com
seus opressores (Freire, 2006), passo indispensável para não esperar a
libertação do próprio opressor (Demo, 2007). A emancipação exige a habilidade
de se confrontar, no sentido de saber questionar a condição dada, tomar o destino
em suas mãos e virar a história: a energia vital desta virada é saber pensar
(Demo, 2009). Faz parte do saber pensar fazê-lo em liberdade: a mente livre é
sua casa. Por isso, “liberdade acadêmica” sempre foi fundamento intocável da
educação e da universidade e dos “intelectuais” em geral. Nisto igualmente são
temidos, porque daí provém o questionamento do status quo, ainda que este questionamento possa ser apenas
“intelectual” (Demo,1982; 1988). A mente humana tem, entre suas capacidades, a
de nunca estar satisfeita, porque saber pensar implica igualmente saber ir além
do que está dado e especular, imaginar, fantasiar o que poderia ser (utopia)
(Demo, 1973). Daí provêm as tecnologias, signo maior de um ser que não se
basta. Como reza a Bíblia, quer ser deus, como aparece freqüentemente na ficção
científica: a capacidade de manipular o mundo e suas leis para se poder fazer o
que bem se entende.
Esta
rebeldia, entretanto, tem seu lado sombrio. Primeiro, como se alega em
sociologia, o revolucionário de hoje será o reacionário de amanhã, desde que
chegue ao poder. Já cansamos de ver isso na história (Holloway, 2003). Quem
sabe pensar, nem sempre gosta que outros também saibam pensar. Segundo,
questionar dificilmente vem acompanhado de autoquestionar-se. A hipocrisia
corrói as entranhas do saber pensar, tornando-o autodefesa e artimanha.
Bastaria observar os procedimentos de antigos escribas e pajés, e do abuso do
saber especializado hoje. O sistema educacional, em grande parte, abriga a
artimanha do domínio das mentes (Demo, 2004), através de procedimentos
disciplinares, acerbamente criticados por Foucault (2007). Por ser
auto-referente e não permitir acesso externo direto, a mente humana facilmente
se apresenta como habilidade dúbia: o que está na mente do outro se pode, no
máximo, induzir, não saber. Ao mesmo tempo que podemos produzir conhecimento de
qualidade e também compartilhá-lo com os outros, podemos, não menos, nos
apropriar desta produção, ou deturpá-la, manipulá-la em proveito próprio.
Segundas intenções freqüentemente são as primeiras. A mente humana não é
equipamento que procede de maneira neutra, objetiva, porque não se porta como
expectadora, recipiente, absorvedora, mas como dinamicamente participativa
daquilo que entra na mente. Entender a realidade não é fazer dela cópia,
representação direta, mas reconstruir imagem sob risco próprio. Como sugere a
autopoiese, torna-se quase impossível distinguir entre realidade e alucinação
(Maturana, 2001), pois o critério de distinção poderia estar alucinado. Do que
está na mente a única instância é a própria mente, ainda que, vivendo em
sociedade, surge sempre a possibilidade natural de coordenação das mentes,
resultando disso percepções socializadas do que é realidade. Na prática, não
vemos as coisas como são, mas como somos (Demo, 2009).
A mente é dinâmica
manipuladora da realidade, ao trabalhar com percepções construídas de maneira
auto-referente. No entanto, esta manipulação possui igualmente seu lado não
acessível à própria mente, já que esta, no processo evolucionário e cultural,
não se inventa. Não inventamos, por exemplo, a linguagem, a recebemos no
contexto de uma cultura dada e da qual somos parte e usuários, em parte
“usados”. A mente não inventa o que quer, mas o que é viável evolucionária e
culturalmente. Isto não desfaz sua capacidade criativa, mas a circunstancia em
dinâmicas relativas, como aludia Barthes com a tese da “morte do autor” (1968).
A visão socrática do conhecimento pode ser corretivo pertinente: quem saber
pensar, sabe sobretudo que não sabe tudo; precisa, antes de tudo, questionar o
saber pensar. Isto não resolve a questão, como se a mente pudesse “saber-se”
por inteiro, mas permite avançar com cautela e coordenar-se melhor com outros
modos de saber pensar. A face mais interessante deste imbróglio é a “arte de
interpretar” (Foucault, 2004. Gadamer, 1997), reverberando o lado sempre
original da mente: embora nenhuma seja evolucionária e culturalmente original,
o é em sua individualidade e subjetividade, não havendo, jamais, duas interpretações
iguais, mesmo quando se trata do mesmo sujeito. Por exemplo, se perdemos um
texto digitado no computador e temos, depois, que refazê-lo, não há a menor
chance de que possamos repor o mesmo texto. Será outro texto, por mais similar
que seja. A mente humana é de tal modo plástica, jeitosa, criativa que produz
música, poesia, piada, arte, e também ciência e matemática.
A evolução
da wikipedia ilustra, com cores muito vivas, uma proposta de produção de
conhecimento mais visivelmente conturbada e criativa, em parte retomando um
desiderato antigo da enciclopédia (reunir todo o conhecimento humano
disponível), em parte refundando a epistemologia, tornada a agora de acesso
generalizado.
II.
UTOPIAS E UTOPISMOS
Dispensando
teorizações mais complexas, entendo por utopia a criação constante na história
humana de mundos alternativos que, embora irrealizáveis (são idealizações),
fazem parte da realidade em sentido negativo: são fonte permanente do
questionamento do que aí está. Por exemplo, aquela cidadania perfeita, na qual
todos se organizam e participam, e controlam eximiamente os mandantes, não
existe na prática, mas dela retiramos a força para continuar lutando por
cidadanias mais qualitativas. Entendo por utopismo a pretensão descabida, em
geral ditatorial, de implantar utopias na prática, como, por exemplo, tratar a
todos de modo perfeitamente igual. O resultado ditatorial é que, desconhecendo
as diferenças, trata-se de modo igual gente diferente, redundando em injustiças
ainda maiores. Faz parte do utopismo também considerar situações históricas
como ideais, obscurecendo sua relatividade e incompletude, servindo como
exemplo recorrente a expectativa vastamente proclamada nos Estados Unidos de
melhor democracia do mundo (Friedman, 2005).
A wikipedia
guarda uma utopia notável, maravilhosa, sensacional e que galvaniza milhões de
contribuintes, mas vira utopismo, quando se apresenta como modelo cabal de
enciclopédia ou ignora suas ambigüidades na construção e institucionalização do
projeto. Longe de uma comunidade apenas orientada pela cooperação de boa fé,
ela oferece o espetáculo dantesco de vandalismo insistente e de disputas
dramáticas por poder, mostrando que rivalidades a constituem também. O abate da
autoridade é slogan retórico e serve para encobrir entendimento conveniente
(farsante) do exercício do poder. Se Foucault estivesse vivo, iria divertir-se
às gargalhadas com tais ambigüidades, por mais que se possa criticá-lo de
obsessão demasiada pelo tema e principalmente pela pretensão de monopólio do
espírito crítico (O’Neil, 2009:72-73. Spariosu, 2005; 2006). De certo modo, o
fez Bourdieu (1999), com percepção aguçada da dominação em sociedade e suas
artimanhas. De fato, ainda que não seja o caso transformar poder em obsessão
analítica, como ocorreria em sociologia (Demo, 1973; 1988), não se escapa de
reconhecer que é tema sufocante. Se não gostamos do tom de certa “defesa” da
autoridade legítima em Weber (1978), porque nos atrai o canto da sereia da
comunidade sem autoridade, uma percepção (mais) realista do processo de
socialização sugere que poder faz parte da “estrutura” social das sociedades
conhecidas. Na “dialética histórico-estrutural” (Demo, 1995), tento compor esta
ambigüidade angustiante para a análise sociológica: de um lado, sociedade é dinâmica
histórica, tanto por ser parte da natureza sempre em vir-a-ser, como por ser
parte de fenômenos históricos, todos marcados pela passagem, provisoriedade,
incompletude. Isto permite asseverar que poder é sempre dinâmica natural e
histórica: periclitante, temerosa e temerária, sujeita a mudanças constantes,
nunca completa e definitiva. Todos os poderosos passam, mesmo que durem muito,
também expressões multimilenares como o patriarcalismo. De outro lado, poder é
parte da estrutura da sociedade, um dos componentes recorrentes de suas
dinâmicas, um dos pilares em torno dos quais as dinâmicas se fazem e desfazem.
Teorias do
caos estruturado (Demo, 2002) sugerem que mesmo uma dinâmica caótica revela
alguma estrutura: toda dinâmica apresenta recorrências e que são mais bem
estudadas pela ciência que, por conta do método, aprecia o que é invariante nas
dinâmicas; acaba estudando o que não é dinâmico nas dinâmicas (Massumi, 2002).
Na natureza e na história há modos de ser e modos de vir-a-ser, o que permite teorizar
sobre regularidades ou recorrências, ainda que este ordenamento, como diz
sarcasticamente Foucault (2000), seja produto mental. Esta percepção permite
engolir que poder é uma das estruturas sociais com as quais sempre nos
deparamos, sendo mais ajuizado partir dele do que prometer sua extinção, até
porque analistas ou revolucionários que assim procedem (querem acabar com o
poder) sempre morrem antes. Este reconhecimento é arriscado, porque facilmente
pode desandar em promoção do poder, tomando-o como imutável, intocável. É
preciso, então, segurar nas mãos duas rédeas dialéticas – histórica e
estrutural – para podermos cavalgar uma dinâmica complexa não linear de maneira
mais aproximadamente realista.
Os
wikipedianos facilmente se enrolam em discursos utopistas e salvacionistas,
conduzidos por pretensões utópicas em si interessantes. É fenômeno de rara
beleza a interatividade na internet, na qual todas as relações e clivagens
parecem “aplanar-se” (Friedman, 2004), e que proporcionou chance incrível de construção
de conhecimento a infinitas mãos. A participação de todos (desde que tenham
computador e internet!) representa a “riqueza das redes” (Benkler, 2006) e um
estilo de sociedade “informacional” (Castells, 1997) que pode abrir grandes
avenidas para processos participativos legítimos e produtivos. A isto acresce a
devoção da geração net, marcantemente embasbacada com o mundo virtual e que lhe
faz parte cada vez mais, sem volta (Tapscott, 2009. Winograd & Hais, 2008),
introduzindo em suas vidas estilos alternativos de cooperação em grande
dimensão. A questão é não perder de vista a montanha de problemas que também
arranjamos, seja porque a internet é igualmente um “lixão”, seja porque é bem
possível estar só na multidão virtual, seja porque, entre interações positivas,
há outras destrutivas, balançando entre “tecnofilias” e “tecnofobias” (Demo,
2009a). Como o mundo virtual é tramado por dinâmicas ambíguas e dialéticas, não
cabe só apreciar ou só detestar, mas tomar como unidade de contrários. A
wikipedia declama, naturalmente, suas virtudes, em nome de suas utopias, mas
tende a ignorar impasses, contradições, tumultos, para fazer boa figura, por
vezes em flagrante hipocrisia. Poder abriga tendências hipócritas incontidas,
porque precisa aparentar – para os incautos – que só quer seu bem. Seus líderes
carismáticos, ironicamente chamados de “ditadores benevolentes”, facilmente
extrapolam todas as expectativas democráticas e comunitárias ao permanecerem no
poder de maneira mais ou menos vitalícia e incontestada, provocando em seus
liderados relações histéricas. Este fenômeno facilmente recorrente já seria
suficiente para indicar o quanto a prática está distante da teoria, já que se
trata de comunidades por vezes muito produtivas, empenhadas e comprometidas numa
obra comum, mas manietadas a alinhamentos inacreditavelmente rígidos[3].
Quando se
ignora o poder, faz-se apenas o que os poderosos querem. A natureza, no
entanto, insinuaria que seria viável imaginar um estilo de autoridade
libertadora, à la Paulo Freire (1997)
e que faria parte da “pedagogia”: todo professor é autoridade, mesmo que não
queira assim ser visto; todavia, a pode exercer de modo que fomente a formação
da autonomia de seus alunos. A sociologia da educação é propensa a
ridicularizar esta expectativa (Demo, 2004. Bourdieu & Passeron, 1975), em
uníssono com Foucault (2007), porque tende a ressaltar seu lado socializador,
domesticador. No entanto, o que a sociologia empurra para um canto
(reprodução), a natureza parece realocar em certo meio termo: todo ser vivo
nasce em ambiente de dependência aguda, fatal, de seus procriadores, mas,
convivendo com eles e com a realidade circundante, constroem oportunidades de
autonomia e que eclodem, com o tempo, na urgência de vida própria. Assim,
estaria inscrita na mente do ser vivo esta ambigüidade dialética: precisamos de
autoridade que fomente a autonomia e precisamos de autonomia que se
compatibilize com autoridade. Toda situação de dependência clama por autonomia;
toda situação de autonomia implica dependência. Ocorre que, por laivo
sociológico, tendemos a estigmatizar o lado perverso da autoridade, também para
reagir à visão weberiana entendida por muitos como um preito à autoridade
(Demo, 1973). Dialeticamente falando, poder é dinâmica dialética, ambígua, contraditória,
na qual há dois lados sempre, mesmo que um deles experimente condição de
submissão profunda. O lado de baixo não é descartável, secundário, mas
integrante da unidade de contrários. Tanto é assim que é possível, dependendo
das circunstâncias e do saber pensar dos dominados, mudar a situação: é sempre
cabível o poderoso perder o poder. Esta abertura intrínseca de dinâmicas
dialéticas, no entanto, precisa ser balanceada com a possibilidade não menos
comum de o novo poderoso ser ainda mais virulento que o anterior. Toda crítica
do poder postula poder!
Esta
condição parece clamorosamente típica da wikipedia. Seus discursos libertários
do software livre, da produção cooperativa, da interação desimpedida, do abate
da autoridade acabam produzindo uma cortina de fumaça para encobrir o quanto
contribui para justificar o mercado liberal, a reconstrução de alinhamentos
autoritários internos, a solidificação de burocracias renitentes, a ideologia
da liberdade cerceada. É impressionante como a wikipedia em apenas oito anos de
existência passou de uma comunidade onde todos podem editar sem peias, a outra
repleta de regras e hierarquias, caminhando – assim parece – rumo a textos cada
vez mais protegidos, talvez já finais, ou seja, não mais abertos à edição por todos.
A metáfora do “ditador benevolente”, ainda que honrada por exemplos edificantes
(Wales, em especial), torna-se sarcasmo gritante face às confusões crescentes e
tumultuadas no interior dessas comunidades que, a par da obra comum, luta-se
por ocupação de espaços, por vezes desonestamente. Interessa-me aqui comentar a
utopia
do texto sempre aberto, uma das mais atraentes e brilhantes da
wikipedia.
Considero
esta visão uma das mais fascinantes da wikipedia, pois apanha em cheio a
dinâmica disruptiva do conhecimento, que não é pacote, mera informação, coisa
armazenada, mas gesto incessante de desconstrução e reconstrução. Apanha
igualmente a energia infindável e profunda, suave e forte, da autoridade do
argumento que, ao apresentar-se, constitui uma “força sem força”. É o tipo da
autoridade não autoritária, porque sua autoridade é de mérito do argumento mais
bem fundamentado, tão bem fundamentado que pode sempre ser reconstruído.
Inicialmente pelo menos, a wikipedia tinha esta visão de seus textos: em progresso
infindável, sem formato final, aberto à reconstrução de todos sem peias. Este
estilo de “fundamento sem fundo” (Demo, 2008) elabora uma expectativa dialética
da produção de conhecimento que contrasta ostensivamente com outras inseridas
na wikipedia de teor modernista e positivista, tal qual a noção de enciclopédia
como guarda do conhecimento disponível, ou de neutralidade de sua produção
pelos contribuintes, ou de verificabilidade dos conteúdos dos textos. A noção
de conhecimento como dinâmica desconstrutiva/reconstrutiva é traída aí em nome
de um estilo estabilizado, congelado e definitivo que já se poderia
“preservar”. Enquanto na promessa dialética “todos podem editar livremente” se
promovem textos sempre abertos e que encontram nesta abertura uma de suas
qualidades mais marcantes, nos procedimentos metodológicos esta dinâmica acaba
aprisionada por estruturações reativas. Uma coisa é entender enciclopédia como
repositório do que já se fez – por isso, não cabe pesquisa original, mas compilar o que está disponível –, outra
coisa é entender como referência de incessante reconstrução do conhecimento, na
qual o repositório disponível é infinitamente recriado. Esta talvez tenha sido
a maior novidade e invenção. Mesmo que não caiba pesquisa original, por alguma
razão que não alcanço perceber, todos os textos são expressão viva de processos
interpretativos, re-interpretativos, contra-interpretativos, tal qual o “remix” da internet (Weinberger, 2007.
Latterell, 2006). A wikipedia seria uma fábrica em funcionamento 24 horas por
dia, 365 dias por ano, não um mausoléu. Quando menos, isto desvela outra marca
brilhante: os textos seriam atualizados naturalmente na própria dinâmica de sua
reconstrução sem fim.
Mas há outra
maravilha: se todos os textos estão sempre abertos à reconstrução de todos, o
texto que mais chance teria de merecer a atenção seria aquele mais bem
argumentado, sem que daí decorresse qualquer formatação definitiva. Seria
apenas menos provisório, porque deteria melhor fundamentação. Considero esta face
uma propriedade pedagógica inestimável, porque, como diria Habermas, na esfera
pública democrática e eticamente estruturada, vale a “força sem força do melhor
argumento” (1989). Como não cabe o argumento de autoridade, nem qualquer
imposição autoritária, ser ouvido só poderia ser questão de mérito de quem se
faz ouvir, não gritando, vociferando, agredindo, ofendendo, mas argumentando. O texto que desfila pela
passarela com maior consistência e permanência seria, naturalmente, aquele que
merecesse este respeito da comunidade. Este tipo de texto particularmente
qualitativo não reivindica nenhuma permanência estável, muito menos definitiva,
mas a comunidade o muda dentro do mesmo contexto de profundidade e acuidade,
porque a uma obra prima cabe reconstrução como obra prima também. Assim ocorre
com teorias importantes: todas são incompletas, datadas e localizadas, mas
algumas sobrevivem aos tempos, merecendo a atenção por conta de sua qualidade.
São reconstruídas também, porque isto é do negócio, mas suas reconstruções
precisam deter qualidade similar. Textos irrelevantes atraem mudanças
irrelevantes, ou permanecem estáveis porque não merecem atenção.
Com o tempo,
porém, a wikipedia foi cansando de tanta reconstrução de textos, levada
igualmente pelos azares do vandalismo, ao lado do concurso de amadores com
pouca qualificação. A tentação do texto definitivo retorna com força, em parte
porque alguns textos podem ser tão bem feitos que poderiam permanecer assim por
algum tempo, mas em parte por subordinação positivista a um estilo de produção
que foge de ser discutida. À medida que a wikipedia se aproxima do formato
tradicional, inclina-se a repetir o mesmo modelo de conhecimento, perdendo sua
dinâmica disruptiva. Chocam-se aí dois mundos acadêmicos: um mais moderno,
movido pela expectativa do conhecimento formalista e estável, capaz de dar
conta da realidade assim como ela é; outro pós-moderno, impulsionado pela
dinâmica complexa não linear de elaborações sempre abertas, cuja validade é
relativa, datada e localizada, mas em permanente reconstrução. A energia
disruptiva da wikipedia parece estar se cansando...
Não estou
aqui procurando uma “solução” (unidade de contrários não é solúvel), mas uma
acomodação dialética, possivelmente mais realista. De um lado, há que se
respeitar a proposta utópica de crítica cerrada ao poder, mesmo do poder
legítimo. Como sugere Boehm (1999) em sua análise de povos “primitivos” (da
época nômade), “falar mal dos poderosos” é obrigação cívica, para evitar que o
poder lhes suba à cabeça. O próprio poder legítimo, sem crítica cerrada debaixo
para cima, tende a amealhar privilégios, porque a tentação é quase
irresistível. De outro, estão dinâmicas de poder que, além de componentes
naturais e legítimos, poderiam ser vistas como “pedagógicas”, porque envolvidas
no processo de formação da autonomia. Poderíamos ver isso, com devida cautela,
na liderança de Wales na wikipedia: embora a noção de “ditador benevolente” já
seja suficientemente sarcástica, sua presença possui faces muito positivas, responsáveis
em parte pelo êxito da empreitada. Ainda assim, não posso deixar de reconhecer
que “defender poder” é quase sempre um suicídio.
III. NEUTRALIDADE MAIS QUE ENGAJADA
A wikipedia
é uma enciclopédia, e, como é da tradição enciclopédica, significa esforço de
“compilação” do que existe. Tomado isto ao pé da letra, segue que seu conteúdo
é típico “remix”, ou, reinterpretação das interpretações, discurso de
discursos. Não caberia pesquisa original, a não ser se fosse já algo compilado.
Sendo livre a edição, pelo menos em certo sentido, as compilações admitem,
naturalmente, níveis muito diferenciados de qualidade, predominando facilmente
as mais banais ou em torno de temas banais. Dificilmente Sócrates receberia
maior atenção do que Sílvio Santos. É problema na wikipedia, certamente. No
entanto, pode-se discutir o que seria propriamente “compilar”, aparecendo dois
extremos: textos banais e sofisticados. Mesmo fazendo uma compilação da
biografia de Sílvio Santos, pode ser conduzida com grande acuidade, senso
crítico, elaboração meticulosa, demonstrando autoria visível. Por outra,
pode-se fazer uma compilação medíocre de Sócrates. Em países avançados, esta
questão é posta para os jornalistas com particular ênfase. Entre nós, um
jornalista facilmente aborda qualquer assunto, porque tem formação qualquer. O
resultado disso são entrevistas inomináveis, nas quais as perguntas, em vez de
propor análises pertinentes do entrevistado, apenas revelam a futilidade do
entrevistador. Quanto mais o assunto é complexo, no entanto, tanto mais surge o
desafio de “especialização” do jornalista, como é o caso notável dos
jornalistas “científicos” (que trabalham ciências naturais, por exemplo),
exigindo-se deles altas credenciais acadêmicas, como doutorado nessas áreas.
Supõe-se que, para falar de ciência, é imprescindível conhecimento
especializado, mesmo tratando-se de compilação para a enciclopédia. É o que
fazem as enciclopédias tradicionais, nas quais trabalham, como regra, apenas
especialistas.
Por trás
desta questão está uma discussão infernal em torno da “especialização”
(expertise), em geral não apreciada pelos wikipedianos que fazem edições sem
preocupar-se com isso. Há autores que não vêem problema nisso, porque apostam
na “crowdsourcing”, confiantes no
fenômeno da emergência ou no efeito-piranha. Aposta-se no processo natural de
evolução que elabora níveis ulteriores/superiores, como o surgimento da vida. Surgem
chances de criatividade, não do nada, mas da reconstrução dos componentes
dados. A inteligência seria resultado deste processo emergente, por alguns
visto também no universo como computador (Gardner, 2007. Wolfram, 2002), do que
seguiria, igualmente, que o computador, um dia, também viria a tornar-se
inteligente (Kurzweil, 2005). Alguns analisam a evolução natural como marcada
intrinsecamente pela produção emergente da vida e da inteligência (Wright, 200.
Jensen, 1998. Morowitz, 2002). Sem avançar mais nisso, interessa-me apenas
delinear este tipo de expectativa que se tornou notório com o texto de
Rheingold (2002) sobre “smart mobs”
(multidões espertas), sugerindo que pessoas simples podem produzir textos
inteligentes, desde que isto ocorra no contexto emergente da colaboração de
todos.
A academia
mantém suas suspeitas, porque a tradição modernista da produção científica a
prende ao especialista credenciado (doutorado ou coisa que o valha), de estilo
disciplinar. O questionamento da disciplinaridade da ciência (Demo, 2000)
indica tratar-se de procedimento excessivamente reducionista, se tomarmos em
conta que a realidade nunca é disciplinar. Seu tratamento dito científico o é,
por apegar-se ao método analítico, que imagina entender a realidade
recortando-a em partes subseqüentes, até a um nível último, onde se abraçam
ontologia e epistemologia (a realidade no fundo seria simples e sua explicação
também). Não se trata de rejeitar o reducionismo por completo, já que se aceita
ser toda teoria naturalmente reducionista, porque idealiza a realidade em um
modelo simplificado (Haack, 2003. Giere, 1999. Demo, 2000b). Rechaça-se o
reducionismo sem autocrítica, por pretender fazer coincidir o discurso
científico com a realidade analisada sem mais. Levando-se ainda em conta a
querela em torno da interdisciplinaridade, em geral pouco produtiva, além de
banal (Demo, 2000), restou a impressão de que dispensar a especialização
implica a banalização do conhecimento: conhecimento aprofundado é sempre
especializado. Enquanto se repele a disciplinarização do conhecimento, parece
difícil escapar da especialização, por mais que esta tenda a constituir o
“idiota especializado” (sabe tudo de nada). No outro lado, está o “especialista
em generalidades” (sabe nada de tudo) e que, bem observado, não passa também de
um “especialista”, como se vê claramente no “médico generalista” – não é aquele
que, não sabendo medicina, faz qualquer coisa; muito ao contrário. Ademais, se
aceita, modestamente, que a interdisciplinaridade não pode ser obra de uma
pessoa, mas de um grupo de especialistas (trabalho em equipe). Ao formar-se uma
equipe interdisciplinar, nota-se imediatamente que a expectativa de cada membro
é de que o outro tenha conhecimento especializado, não fazendo sentido cada um
penetrar – como generalista – na seara do outro.
Não se
podendo evitar a especialização (os problemas a serem analisados possuem marcas
especiais, não apenas gerais), seria razoável concertar as coisas: sem
prejudicar a verticalização do conhecimento, ampliar a horizontalização (mais
leitura, discussão conjunta, diversificação de interesses). Como mostra Santos,
com suas teses da multiculturalidade do conhecimento, da ciência como senso
comum e das epistemologias alternativas (1995; 2004; 2009; Santos &
Meneses, 2009), o conhecimento científico é um exemplar no mundo vasto dos
conhecimentos possíveis, ainda que seja amplamente dominante na cultura
eurocêntrica. Seria, então, viável desenvolver a noção de conhecimentos rivais,
não fincados apenas em expertise, mas produzidos colaborativamente, como
pretende a wikipedia. Este tipo de conhecimento não substitui o especializado;
não faria sentido tentar, pois tem outro significado, mais próximo do que
seria, por exemplo, uma “compilação”. Numa enciclopédia não “está” o
conhecimento da humanidade, pois conhecimento “não está”, sendo dinâmica
interminável de desconstrução/reconstrução. Está aí apenas a compilação dos
processos estabilizados de produção de conhecimento, no fundo, já congelados
como informação. Poder-se-ia, entretanto, alimentar outra concepção de
enciclopédia como dinâmica aberta de produção de conhecimento e que subsiste em
discussão permanente, através de processos de edição interminável, sem
estabilização à vista. O que mais se aproxima disso é a wikipedia, ainda que
sua configuração metodológica se oriente por outra visão (modernista). Restaria
discutir ainda se “todos podem editar”, já que, se pesquisa original fosse
aceita (deveria ser aceita, creio), a presença do pesquisador devidamente
formado seria imprescindível, também para não surgir logo confrontos pouco
edificantes entre pesquisadores “duros”, mais rigorosos, formalistas,
matemáticos, e outros “moles”, das ciências humanas (Spariosu, 2006). O que
“todos podem editar” seriam textos experimentais, iniciais, de pesquisadores
menos preocupados com metodologia científica, do que com seu processo caótico de
criatividade. De repente, isto ficaria muito bem numa wikipedia.
De fato, um
dos traços mais atraentes da wikipedia é a desconstrução da academia como dona
da verdade e do método científico. No surgimento da era moderna (por volta do
século XVI) (Burke, 2003. Collins, 1998), a descoberta mais incisiva foi a da “autoridade do argumento” – o discurso
científico se mantém, não pendurado em autoridades (por exemplo, religiosas,
tradicionais, políticas), mas por força de sua argumentação. Um dos confrontos
marcantes foi entre os cientistas da época que defendiam o heliocentrismo, e as
“autoridades” que, por razões teológicas sobretudo, defendiam o geocentrismo. O
confronto resolveu-se em favor do heliocentrismo, mesmo a contragosto do Papa.
O argumenta de autoridade estaria descartado, definitivamente (Demo, 2005;
2008). Todavia, como ciência é produzida em sociedade, não escapa das marcas
sociais, como mostrou magistralmente Kuhn (1975), ao reconhecer que toda
revolução científica acaba se acomodando em paradigmas que a tornam cada vez
mais medíocre, por tornar-se reprodutiva. Retorna o argumento de autoridade,
porque o mundo da ciência é composto de cientistas que manifestam os mesmos
traços de volúpia pelo poder, sem falar que conhecimento é, intrinsecamente, poder
(Portocarrero, 1994). Os processos de produção de conhecimento, mesmo marcados
pela liberdade de expressão naturalmente, estão eivados de interferências
suspeitas de donos da verdade, até porque aí se acredita, à revelia da
autoridade do argumento, em verdades finais e estáveis, uma fantasia criada
pelo método científico, pretensamente neutro/objetivo. Verdades “teológicas” foram substituídas por
outras não menos teológicas (Feyerabend, 1977).
Ignora-se
não apenas o contexto social da produção científica, mas principalmente o
contexto hermenêutico das epistemologias plurais (Demo, 2009b): a par dos
procedimentos formais (em si neutros/objetivos, porque não há uma matemática ou
lógica brasileira e outra chinesa), a mente humana, sendo autopoiética e auto-referente,
não reproduz textos, mas os reconstrói do ponto de vista do observador
participante (Demo, 2002). A matemática usada por Einstein é a mesma de todos;
ele próprio não é. Sem ele, talvez não tivéssemos até hoje o teorema da
relatividade, pois este teorema, a par de sua forma, é igualmente uma
reconstrução genial. Gödel, de certo modo, sinalizou isso com seu teorema da
incompletude (Alesso & Smith, 2009), mas na academia modernista,
positivista, persiste o discurso como produto neutro/objetivo (Demo, 1995). A
wikipedia não pretende desconstruir rigores formais ou formalização como
método. Satiriza a pretensão inatacável dos cientistas, em especial a venda
fácil do argumento de autoridade como autoridade do argumento. Esta venda se
consubstancia no apego à verdade dos fatos, esquecendo-se, como diria Popper
entre outros, que mesmo fatos só são fatos a partir de um processo de
reconstrução mental e à luz de hipóteses rivais/complementares. Por isso
Hobsbawm (1995) fala de “breve século XX”, enquanto Arrighi (1996), de “longo
século XX”! Certamente, o ambiente dos historiadores é bem diferente daquele
das ciências naturais, mas também nestas as abordagens são conduzidas por
aproximações hipotéticas eivadas de interpretação auto-referente. É por isso que
a “teoria da evolução” (de Darwin) é tida por alguns como “comprovada” (escola
de Dawkins) (1998), por outras como hipótese importante e a ser reconstruída
(escola de Gould) (2002), e por outros ainda como improvável ou inaceitável
(criacionistas).
Satirizar a
academia não significa desprezar o que se tem feito, em especial as
contribuições da tecnologia, entre elas do computador, engenharia genética,
física quântica. Quer-se apenas desfazer a empáfia dos donos da verdade que,
vendendo-se como arautos da autoridade do argumento, maquinam o argumento de
autoridade. Em termos epistemológicos, a autoridade do argumento só pode deter
validade relativa, precisamente para não virar autoridade. Qualquer produto
científico que não seja apenas formal detém esta marca natural e social. No
mundo da ciência há infinitas gradações, desde as mais rebuscadas, até as mais
triviais, assim como numa enciclopédia podem-se achar compilações primorosas e
fúteis. Desprezando extremos, seria sempre cabível admitir formatos diferenciados
de enciclopédias, desde as mais requintadas, feitas por especialistas
consumados, até outras mais populares, feitas por “todos que querem editar”.
Neste caso, as edições serão menos “especializadas”, mas não precisam, por
isso, serem fúteis, como a wikipedia, como um todo, está longe de ser fútil.
Bastaria lembrar do estudo da Nature (Nature,
N.d). A sátira cabe ainda mais a pretensos cientistas que se apresentam como
tais, não sendo na prática autores importantes e competentes, como são os casos
incontáveis de acadêmicos que, sem produção própria, dão aula a torto e a
direito. A nova geração está cansada deste disparate, embora possa responder a
um extremo com outro (Tapscott, 2009. A
vision, 2009), desprezando apressadamente a expertise.
A hipótese
de que uma multidão de amadores poderia produzir alta qualidade ainda é obscura
(Keen, 2007. Bauerlein, 2008), também porque a hipótese da emergência se
aplicaria a processos evolucionários de bilhões de anos. Neste sentido, a
crítica pode ser procedente: na wikipedia há bem mais animação comunitária do
que qualidade acadêmica. É lindo galvanizar tanta gente, mas isto não garante
qualidade, muito menos substitui a expertise. O que a wikipedia sugere é que,
“todos podendo editar” (hoje isto tem validade bastante mais relativa), é
possível oferecer produtos respeitáveis, também porque no meio de “todos” há os
especialistas e que tendem a assumir os textos mais complexos. “Todos” podem
compilar uma biografia de Silvio Santos, mas não sobre física quântica. Tomando-se
uma dimensão mais popular da enciclopédia e que admitiria estilos mais
flexíveis de compilação, a wikipedia tem-se demonstrado útil, produtiva e
convincente, além de atualizada. Proibir seu uso para fins de estudo e pesquisa
parece fundamentalismo tolo. O que cabe dizer sempre é que a wikipedia não
substitui outros formatos de enciclopédia.
IV. REBELDIA REGULADA
As três
regras metodológicas podem, a esta altura, ser questionadas mais detidamente. NPOV
(ponto de vista neutro) representa um preito ostensivo ao positivismo, em si
compreensível nos Estados Unidos, a pátria maior da wikipedia. Ainda que se
conceda que não poderia existir neutralidade, usa-se este jargão para empurrar
as discussões para algum consenso, em nome de alguma verdade, nunca definida
mais de perto. Na prática, a proposta se deve ao temor da discórdia,
esperando-se que, tendo boa vontade, todos iriam se encontrar em algum lugar
tranqüilo. A contradição é flagrante e claramente sarcástica: de um lado, se
todos podem editar, isto representaria naturalmente a diversidade de pontos de
vista; de outro, espera-se que tudo isso se acalme num texto final de um único
ponto de vista; no entanto, se todos podem editar sempre, não haveria texto
final, mas em progresso incessante; nem se poderia imaginar que os textos,
oriundos de incontáveis pontos vista, acabassem como peças sem ponto de vista.
Colidem aí dois desideratos irreconciliáveis: saber discutir e saber
alinhar-se. Ora, quem sabe discutir, não se alinha; quem se alinha, não sabe
discutir. A wikipedia é a cara disso, quer queira ou não. Diria, de meu ponto
de vista, que é das marcas mais saudáveis dela, partindo de outra visão. Se a
ciência produz textos sempre discutíveis, formal e politicamente, eles podem
deter grande qualidade de elaboração, precisamente porque permanecem abertos a
elaborações ulteriores, não porque se chegaria a algum patamar “neutro”. O
critério maior de cientificidade é a “discutibilidade” dos textos em nome da
autoridade do argumento. O exercício do aprimoramento das edições, desde que
feito sob a égide da autoridade do argumento, é dinâmica de rara beleza
pedagógica, porque não só promove a habilidade de produzir conhecimento, como
promove, ainda mais, um estilo de cidadania capaz de negociar consensos aprimorados,
ainda que nunca finais (Demo, 2008). NPOV aparece na cena como excrescência, um
alinhamento a metodologias positivistas e que em nada funciona neste tipo de
ambiente. É farsa cômoda.
Quanto à
verificabilidade – V – a crítica é similar: os textos científicos não são
propriamente verificáveis ao pé da letra, porque esta presunção supõe
correspondência direta entre teoria e realidade, algo impraticável em nossa
mente auto-referente e autopoiética. Podem, sim, ser retestados, controlados,
cotejados, mormente reinterpretados, contra-interpretados. Tal percepção da verificabilidade esconde,
ademais, a mediocridade gritante da compilação alinhada a fontes muitas vezes
impróprias. O alinhamento a fontes facilmente atropela a pesquisa mais detida
que questiona as fontes. Esta tática tem seu lado tranqüilizador: impedir que
as edições se façam à-toa. No entanto, pode-se imaginar coisa bem melhor,
quando se mantêm os textos discutíveis por força da autoridade do argumento:
até mesmo texto sem cotejo de fontes poderia ser aceito, desde que bem
argumentado; alguém poderia elaborar uma bibliografia de Silvio Santos de
próprio punho e que, sendo melhor que todas as existentes, não ganharia nada em
referenciá-las. Poderia parecer estranha esta biografia sem citação – pode-se,
claro, sempre citar, desde que não vire fetiche – mas sua qualidade depende,
antes de tudo, da pesquisa acurada e espelhada em dados testáveis, além do
esmero do texto elaborado. A referência fundamental aí seria a fontes
adequadas, compulsadas para levantar a vida de Silvio Santos.
NOR (sem pesquisa original), por
sua vez, ainda que sirva para evitar
“invencionices” de toda sorte, tende a ser restritiva desnecessariamente. Há
certa desconfiança de que, podendo todos editar, as contribuições podem não ser
brilhantes, em especial quando se alega pesquisa própria. Espera-se disso,
porém, justa e contraditoriamente o brilhantismo da wikipedia. Ainda, ao
castigar a “originalidade”, machuca-se a autoria, exasperando o lado medíocre
da compilação. Daí segue uma enciclopédia eivada de textos dúbios, ao lado de
outros muito bons, como é a wikipedia (Lih, 2009). Ficaria melhor abrir a
possibilidade de textos “originais”, desde que dinamizados pela autoridade do
argumento. Ademais, persistindo a repulsa aos expertos, corre-se o risco
flagrante de fazer dos textos exercícios amadores, ou “discursos de discursos”
indefinidamente. Este problema volta na questão da notabilidade, preferida à
relevância: a comunidade que não se orienta pela autoridade do argumento
facilmente adota temas fúteis, perdendo-se em diatribes pouco aproveitáveis.
Compilação que se preza indica autoria, não plágio. Para dar um exemplo
corriqueiro: em ambientes positivistas, “revisão de bibliografia” tende a ser
gesto descritivo, cumulativo, reprodutivo, agregando pedaços de autores
disparatados; em outros ambientes, pode ser iniciativa compromissadamente
reconstrutiva, dentro do desafio de ler autores para se tornar autor, ou
“contraler” (Demo, 1994; 2008a).
A wikipedia
descobriu logo que o concurso dos contribuintes será bem mais importante que
regras metodológicas. De certa forma, instigou a produção incipiente, apostando
em que os outros editores, entrando em cena, acabariam tornando esta produção
incipiente em texto respeitável. Confia-se, em excesso, na participação como
tal, supondo igualmente a boa fé de todos. A experiência malograda do Los Angeles Times (wikitorial sobre a guerra no Iraque) foi marcante no sentido de
mostrar que não se pode confiar tanto assim na “mágica” da wikipedia. Não se
critica este gesto de boa vontade, porque pior seria imaginar, previamente, que
todos são malandros, mal-intencionados, até prova em contrário. É muito
interessante a expectativa de um ambiente caótico, marcado pela liberdade de
expressão, repleto de vozes diferenciadas, representando nisto também a
biodiversidade. O problema é que se escondem as contradições deste tipo de
dinâmica: de um lado, instiga-se que todos participem; de outro, desconfia-se
que, onde todos participam, o resultado pode ser frívolo; para evitar isso
usam-se dois discursos incompatíveis: participar à vontade, mas respeitando
regras cada vez mais rígidas. Parece salutar a preocupação em manter os
procedimentos como instrumentais, valorizando-se o conteúdo criativo. Mas a história
da wikipedia indica que os procedimentos estão se tornando a própria finalidade
maior, a ponto de sabotar um dos pontos de partida mais iluminados: os textos
são sempre abertos. Buscam-se mentes indomáveis, desde que aceitem ser domadas
no processo.
Entendo que
as três linhas metodológicas, ainda que detenham noções práticas, são um
cardápio indigesto, formulado em ambientes pouco iluminados metodologicamente e
muito alinhados ao positivismo dominante. O que incomoda é que tudo isso se
arma para manter o princípio de que “todos podem editar”, uma contradição
vagabunda. De um lado, busca-se um estilo candente de produção de conhecimento,
sempre aberto e atualizado; de outro, impõem-se regras que extirpam este fogo.
O que a wikipedia é, em tom maior, é um campo de forças marcado por
interpretações rivais e nisto criativas. A cooperação é dinamizada também pela
rivalidade, porque, na natureza e na sociedade, são processos dialéticos na
unidade de contrários. Incomoda na wikipedia que este ambiente facilmente
desanda em vandalismo, agressão, destruição, esquecendo-se do compromisso com a
obra básica: uma enciclopédia feita a mil mãos. Neste sentido, em vez de pregar
alinhamentos metodológicos que apenas reforçam as rivalidades, seria mais
recomendável estudar modos de convivência rival e, ainda assim, éticas. Isto
aponta naturalmente para a força sem força da autoridade do argumento (Demo,
2005a).
V. FUTUROS DA AUTORIA
A wikipedia
mostra, apesar de sua história tão curta e também estrondosa, que a autoria já
não é propriedade restrita a algumas cabeças privilegiadas. Na prática, é
acessível a todos, mesmo na maior simplicidade, porque qualquer pessoa simples
também é “autora” de sua vida. Quanto mais a autoria se fecha em certas
cabeças, mais se torna argumento de autoridade, maculando seu berço embalado
pela liberdade de expressão. Nesta rota, um dos serviços mais importantes da
wikipedia é a popularização do “espírito científico”, considerado uma das
habilidades do século XXI. Saber lidar com método científico torna-se desafio
geral, como parte da formação geral das pessoas. O argumento mais à vista é
sempre o do mercado: para poder competir melhor. Mas, do ponto de vista da
educação, o argumento crucial é formativo, divisando aí não só a questão do
conhecimento, mas principalmente da cidadania. A esfera pública não pode ser
ocupada apenas pelo especialista que sabe técnicas sofisticadas da
argumentação, mas por todos (“todos podem editar”). Com razão, Fraser (1992)
questionou a concepção de esfera pública da Habermas, excessivamente
eurocêntrica e patriarcal, refletindo, em parte, a democracia elitista e
restrita grega.
O’Neil
(2009) apontou para a predominância ainda masculina nos ambientes virtuais, em
especial nos mais requintados, ainda que isto esteja mudando rapidamente. Neste
sentido, “forças arcaicas” continuam jogando pesado, sem falar nos
intermináveis vícios das democracias atuais e por isso colocadas em cheque pela
geração net (Tapscott, 2009. Winograd & Hais, 2008). Há um caminho enorme a
ser andado até podermos equilibrar a “igualdade de oportunidades”. No entanto,
parece claro que a wikipedia tem sido um farol nesta escuridão. Continua sendo
um fato que muitas mulheres têm sua autoria atrelado ao homem, à sombra dele,
ou gravitando em torno dele. O machismo na internet é público e notório, a
começar pela pornografia. No mundo dos hackers a presença feminina ainda é
peregrina, bem como na alta ciência. Mas isto pode mudar e deverá mudar (Plant,
1999). A idéia, então, de que “todos podem editar” serve de alento à
participação indiscriminada, por mais que regras crescentes restrinjam as
liberdades. Em última instância, as mulheres poderiam construir sua própria
proposta, uma enciclopédia voltada para sua proposta de sociedade e
desenvolvimento e dotada de ambientes mais libertários, ainda que não
dicotômica.
Ao fundo,
porém, o mais importante é a percepção cada vez mais incisiva de que a energia
rebelde, disruptiva do conhecimento questionador precisa tornar-se patrimônio
público, o que demandaria, por sua vez, outro formato de enciclopédia: não um
repositório compilado do que existe, mas uma fornalha incandescida e talvez
ensandecida, de produção de conhecimento de utilidade geral. Não se poderia
perder esta tradição virtual, embora presa a expertises raras/carismáticas:
conhecimento é tão importante para a sociedade que não poderia ser apropriado,
também porque, não sendo nenhuma mente original, o que se produz provém do que
outros produziram e vão reconstruir. Idéias são tipicamente bem comum: não
devem ser vendidas, nem compradas. Nem em termos pessoais a mente é
propriedade, porque somos, em algum sentido, apenas usuários dela. Esta utopia
vale a pena. Não deveria jamais ser sufocada em nome do mercado.
É claro que,
tornando-se o conhecimento científico de alcance popular, as epistemologias
mudam, por vezes, dramaticamente. A tendência será a construção de textos mais
“populares”, de compreensão mais acessível, mais curtos (também para caberem na
tela), multimodais (modulando argumentos visuais, acústicos, plásticos,
movimentados), sugerindo que conhecimento que só alguns entendem não tem maior
significado para a sociedade. É preciso sempre ver o que se ganha e perde.
Ganha-se em acesso popular, uma dimensão inestimável. Perde-se verticalização,
também fundamental. Daí segue que não deveríamos ver aí rivalidades apenas, mas
igualmente modos alternativos de cooperação. O conhecimento tradicional, também
o positivista, guarda seu lugar, porque demonstrou efetividade imponente. Mas
deveria permitir ou promover alternativas de conhecimento, tanto como
complemento, quanto como questionamento. É de capital relevância o surgimento
de conhecimentos rivais, não só porque, na verdade, sempre existiram, mas
principalmente porque o espaço do conhecimento não pode ser ocupado por grupos
seletos e que, ao final, são gangues (Santos, 2004).
Pode-se,
então, apreciar na wikipedia também seus efeitos pedagógicos em termos de
autoria. Quando editores simplórios se metem a editar, pode ocorrer um
desastre, naturalmente, mas também um exercício de elaboração com marca
formativa, à medida que tomam contato com o espírito científico e, ao lado do
método, praticam um tipo de cidadania que sabe argumentar. Este efeito é
impagável: aprender a preferir a autoridade do argumento; perceber sua força
sem força; apreciar consensos tão bem feitos que podem sempre ser refeitos;
fundamentar de tal modo que o texto permaneça discutível, formal e
politicamente. Acresce a isto certo tom lúdico: a turma se diverte, enquanto
trabalha, e, ao final, aprecia o resultado – uma enciclopédia sem maiores
credenciais, mas interessante, útil, criativa e sempre atualizada. Um resultado
primoroso é aprender a “pesquisar” e a “elaborar”, num ambiente que empurra as
pessoas a preferirem a autoridade do argumento. Neste sentido, pode-se ver aí
uma chance imperdível de aprender bem, num espaço interativo, crítico e
criativo.
Em seu tom
pós-moderno, a wikipedia consagra a noção preciosa de que uma idéia só pode ser
“crítica”, se for plural. Idéia única, sendo “idéia fixa”, não passa de
argumento de autoridade. É recado crucial para “críticos” sem autocrítica,
quando a crítica se torna senha de um povo eleito que se imagina ter o direito
de massacrar teorias e práticas rivais. Olhando, por exemplo, a Escola de
Frankfurt, o que mais chama a atenção não é uma proposta alinhada e unitária de
“teoria crítica”, mas sua imponente diversidade (Darder et alii, 2009. Giroux,
2009. Freitag, 1986). A escola era preenchida de mentes brilhantes e indomáveis
que promoviam um “projeto comum” tecido de maneira plural. O lado mais fecundo
da teoria crítica é sua verve maiêutica da autocrítica, uma virtude em geral
ausente em nossas propostas críticas, porque, ao pretenderem superar donos da
verdade, se instauram ainda mais como donos dela. Teoria única, absolutamente
válida, é um petardo religioso, um dogma sujo, uma tramóia violenta, por mais
que tenha como objetivo abrir as mentes. Ignora, porém, como a wikipedia atual
ignora, que mentes não se abrem impondo alinhamentos, censurando a rebeldia
alheia, monopolizando a palavra. O tecido infinito de vozes díspares, rivais e
complementares, é o texto pós-moderno, no bom sentido, certamente muito mais
difícil de “gerir”. É sempre mais fácil gerir tente dócil, mesmo que se diga “crítica”.
A wikipedia possui esta graça: retorna à biodiversidade da natureza, plural,
esparramada, dinâmica, ambígua. Nenhuma obra final sai daí, porque toda obra é
interrupção e continuação, original e surrada. “Todos podem editar” poderia ser
traduzido como “todos podem sempre aprender”, sem nunca chegar a algum ponto
final (Grossi, 2004). Esta utopia aponta para um estilo de “qualidade humana”
em processo infindável de formação aberta, crítica e autocrítica, rival e
solidária (Demo, 2009c).
Tudo isso,
entretanto, não encobre o tumulto desta esfera pública, porque nela não se
brandem só argumentos, mas sacanagens de toda sorte. A wikipedia tem
equacionado este desafio razoavelmente, mas encontra questões complicadas e
cansativas, azedadas também por seus critérios metodológicos positivistas. O
problema é que a wikipedia ainda não consegue apreciar uma “boa discussão”,
preferindo textos “neutros”. De um lado, faz parte da tradição enciclopédica:
não se dedica a discutir, mas a compilar. De outro, perde-se oportunidade ímpar
de iluminar este tipo de esfera pública dedicada à boa argumentação e que
sempre é um discurso “discutível”. Os mentores da wikipedia, por ranço
positivista, não conseguem valorizar esta dimensão. Como é reprimida, a
resposta é a contra-repressão, travestida de vandalismo e atitudes similares
agressivas, destrutivas. Possivelmente seria o caso conceber outros formatos de
enciclopédia, para abranger o que a wikipedia é: um fórum de discussão aberta
sobre produções vigentes de conhecimento, não um sarcófago de textos em
decomposição. Em geral, os temas mais caros, sensíveis, tocantes são
“controversos”, porque somos, em pessoa, uma controvérsia ambulante. O desafio
seria armar ambientes onde a controvérsia pudesse ser relativamente bem comportada
e construtiva, podendo-se regular a si mesma em seus riscos de agressão e
dissolução. Não há solução para tais riscos, mas poderiam ser “geridos” num
sentido democrático aproximado. No fundo, a wikipedia caminha para um texto
“estabilizado”, porque considera texto adequado aquele que já não é discutido.
Na prática, o ideal seria o contrário: texto pertinente é o que suscita
discussão. A beleza maior de um texto está em sua abertura promovida pela
autoridade do argumento.
A wikipedia
teme que este tipo de discussão aberta levaria a lugar nenhum – discussão
interminável. Pode ocorrer – discutir por discutir; criticar tudo sem colocar
nada no lugar. Seria de se perguntar, entretanto, se textos estáveis levam a
algum lugar melhor. Levariam ao mesmo lugar da enciclopédia tradicional, um
mausoléu rebuscado de textos. Não é este o destino da wikipedia, porque é uma
sarsa ardente. Neste sentido, vejo com preocupação o avanço da rigidez de
regras que contradizem, cada dia mais, às premissas iniciais da liberdade irrestrita
de expressão. Houve um tempo em que se sugeria ignorar as regas, em nome da
criatividade. Hoje é todo o contrário: só há criatividade tolerável se
obedecerem às regras. Uma contradição sarcástica. Aceitar que a ciência é um
texto discutível implica mudança radical de epistemologia, porque despe os
cientistas de sua autoridade de experto ou de esperto.
Entretanto, não é o caso agredir o especialista. Ele é figura central da
produção científica. Cabe, porém, reconhecer que não preenche o espaço científico
sozinho. Há outros conhecimentos rivais, também relevantes, ainda que não
concorram em importância com o científico na cultura eurocêntrica.
Tudo isso
desvela, quase como um tapa na cara, a politicidade do conhecimento.
Primeiro, pode-se aludir ao sarcasmo contido na própria wikipedia: prega
procedimentos neutros em meio ao maior tumulto das guerras de edições. Neste
sentido, abriga um faz-de-conta medieval, presente em todas as esferas
positivistas: usa a ideologia da neutralidade para impor o silêncio a quem
discorda. Segundo, a disputa por verdades, sempre repletas de inverdades,
deveria ser substituída pela disputa por argumento, inspirada na autoridade do
argumento. Isto não pacifica a comunidade, porque beligerância lhe está na alma
também. Mas tempera com alguma ética, para que não se matem todos, não restando
ninguém para o enterro. Terceiro, apesar de todas as promessas libertárias, a
wikipedia também está pendurada em carismas fortes, cuja interferência é, em
geral, engolida sem pestanejar, num gesto terrivelmente pouco democrático.
Submissão a carismas é comum entre libertários...
Talvez não
seja para se surpreender. A busca de coerência dos textos, em sentido formal,
não pode obscurecer que somos criaturas contraditórias. Nossa própria mente,
como artefato fisiológico, é uma composição de camadas em parte adaptadas, em
parte dissonantes, cujas energias nem sempre são sinérgicas (Lewis et alii,
2000). Pregar a democracia mantendo um sentido forte de liderança é coisa comum
em nossa história. Alardear liberdade de expressão e alinhar-se a líderes
carismáticos, igualmente. A wikipedia tem este defeito e esta virtude. É
defeito, porque promete o que não faz. É virtude, porque reflete a algazarra
humana, na qual ter voz quase sempre implica suprimir a voz do outro.
CONCLUINDO
A wikipedia mantém chefes carismáticos (O’Neil, 2009), em particular Wales, como referência indiscutível, à revelia da declamação pomposa de produção livre e igualitária. Passo a passo, o projeto foi sendo engessado burocraticamente, em parte por necessidade de organização e qualificação dos textos, em parte para superar vandalismos de toda ordem, em parte por disputas de poder. Não parece longe a possibilidade de se instaurar textos “definitivos”, que já não se poderiam editar mais, em nome de metodologias enrijecidas. Já não se aceitam mais textos anônimos. A idéia original de contar com o bom caráter dos editores está bastante arranhada, porque, embora valendo como princípio salutar de convivência, na prática tornou os textos vulneráveis em excesso. Aí parece haver uma disjuntiva: ou se mantém o compromisso original de que “todos podem editar”, deixando os textos sempre abertos, ou se avança na direção oposta de estabilizar produtos em nome da expertise. Penso que a wikipedia não deveria desfigurar-se para se tornar mais uma enciclopédia, entre tantas. Seu charme maior está no cultivo de um ambiente de produção rebelde de conhecimento, ainda que mais da ordem da “compilação” (remix). Por isso, também, não deveria pretender substituir outros projetos, mas apresentar-se como alternativa pertinente, o que, sem dúvida, continua sendo.
O abuso da liberdade não pode descambar para sua supressão. A wikipedia, mal ou bem, mostra que consensos negociados são possíveis, desde que mantidos como propostas abertas. Isto suscita a preferência pela autoridade do argumento, da qual vive a cidadania que sabe pensar. Finalmente, saber pensar desceu à terra, porque, “todos podendo editar”, tornou-se viável também para pessoas não especialistas. Deveria, porém, rever pretensões ineptas de “neutralidade” ou coisa parecida, porque isto a torna tanto mais exposta e contraditória. Os textos não são, nem de longe, “neutros”, mas disputados dentro de regras de jogo igualitárias. Em vez de alinhar os editores, seria mais interessante ensaiar um pedagogia de rivalidades éticas e produtivas, em nome do bem comum...
BIBLIOGRAFIA
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[1] Crowdsourcing – agregação de conhecimento a partir da multidão; smart mob – multidão esperta, inteligente.
[2] Do grego: stigma (sinal) e ergon (ação).
[3] Dois exemplos de “abuso do
poder” de líderes carismáticos: No DailyKos, Kos, ao ser questionado em suas
decisões, desferiu sem mais: “First of
all, no one speaks for Daily Kos other than me. Period” (O’Neil, 2009:116).
Na wikipedia, Wales, após bloquear um usuário problemático, foi bloqueado por
ZScout370, que, prontamente recebeu de Wales um banimento de uma semana! Em
2008, destituiu um sysop (acusado de
misoginia), sem reações da comunidade, por se tratar do líder carismático
(Id.,158).