CONHECIMENTO REBELDE E ENQUADRADO

- Novas epistemologias virtuais à luz da história da wikipedia -

 

 

 

Pedro Demo (2009)

 

 

 

A wikipedia começou em 2001. Em oito anos de existência, tornou-se uma enciclopédia “livre” de porte incrível (Wikipedia, 2009), congregando a dedicação de milhares de pessoas gratuitamente para editar textos sob a égide da liberdade de expressão. O mote central era: “Todo mundo pode editar”, sinalizando liberdade irrestrita de autoria individual e coletiva – no plano individual, todos podem apresentar seu texto e/ou fazer mudanças nos textos existentes; no plano coletivo, nenhuma autoria individual é soberana, valendo o texto coletivamente urdido e sempre aberto. Havia a expectativa, em geral fundada na proposta de “crowdsourcing” (Howe, 2009) ou de “smart mob[1] (Rheingold, 2002. Tapscott & Williams, 2007), de que o concurso de uma massa crítica numerosa produziria, em sua própria dinâmica e sem hierarquias, conhecimento de suficiente qualidade (Lih, 2009. O’Neil, 2009). Por trás está uma teoria biológica da “emergência”, segundo a qual a natureza constrói e reconstrói novos seres e dinâmicas a partir de estágios anteriores menos sofisticados, em parte chamados pelos internautas de “remix” (Weinberger, 2007. Latterell, 2006). Assim teria surgido a vida em suas múltiplas formas, bem como da massa cinzenta surge pensamento: “emerge” de uma base material para aparecer como dinâmica imaterial (Edelman & Tononi, 2000). De algo mais simples pode resultar extrema complexidade (Wolfram, 2002), e sem comando central (Johnson, 2001. Holland, 1998. Wright, 2000). Do caos pode provir ordem, como sugere Holland, em processo de criatividade crescente, ainda que a natureza, em si, nada “crie” do nada. Ela cria do que já existe, ou seja, reconstrói indefinidamente. Esta expectativa faz parte da construção da wikipedia, referenciada também como “efeito-piranha” ou “stigmergy[2], categorias da pesquisa biológica para descrever o comportamento de vespas e cupins, quando constroem coletivamente estruturas complexas; o produto do trabalho prévio, ao invés de comunicação direta entre os construtores, induz e direciona como tais insetos realizam trabalho adicional e sem comando central de cima para baixo. Ocorreria algo similar na wikipedia: cada editor retoma o trabalho anterior e assume aí um direcionamento para continuar, redundando, ao final, num texto aprimorado.

De posse de um software (Wiki) que faculta edição livre de texto e apostando em tais expectativas teóricas, a wikipedia iniciou uma façanha inédita e estrondosa, apresentando por volta de 2008 dez milhões de textos em mais de 200 línguas. Nesse tempo, ocorreu uma fábrica excitada e incomensurável de textos, mostrando o lado fantástico da cooperação humana, a ponto de alguns teóricos verem aí um “novo modo solidário de produção” (Benkler, 2006). Sendo gratuita a contribuição na wikipedia, chama a atenção que tanta gente encontre motivação por vezes devota e desinteressada a este empreendimento coletivo. No entanto, as promessas de liberdade de expressão foram, aos poucos, sendo restringidas, em parte por causa de seus abusos (o preço da liberdade é seu abuso), em parte para organizar melhor o processo produtivo e garantir padrões mínimos de qualidade acadêmica. A rebeldia do conhecimento se submeteu crescentemente a ritos de enquadramento, sugerindo que a wikipedia também expressa ambigüidades comuns a projetos coletivos que se querem libertários: forjados para captar e potencializar a contribuição livre de todos, somente avançam e se consolidam sob crescente regulação da participação, das atividades e das instituições. O exercício coletivo da liberdade implica seu cerceamento, em nome do bem comum. Uma clássica “unidade de contrários”...

Neste texto procuro analisar esta peripécia extraordinária, ressaltando inovações espetaculares e traições comuns em práticas libertárias que convivem, ironicamente, com autoridades indiscutíveis. Depois de oito anos, o mote “todos podem editar livremente” já tem validade muito relativa; para muitos já sequer vale, tamanhas são as regras impostas entrementes a quem quer ser editor. Mesmo assim, isto não destrói a beleza do projeto, embora revele, à revelia, o drama da liberdade de expressão, essencial para o conhecimento questionador: desde que a rebeldia tenha alguma proposta concreta, ao pôr-se a realizá-la, deixa de ser rebelde; de fato, quem propõe mudanças, não as pode gerir! Toda proposta crítica, ao instituir-se, vira paradigma e, como tal, decai para a história que passa e ultrapassa. A wikipedia ainda é um furacão, mas está perdendo fogo, visivelmente.

 

 

 

I.    PROMESSAS

 

 

 

A wikipedia conclama a sociedade em geral para produzir conhecimento. Nunca se viu isto antes, porque produzir conhecimento sempre foi atividade reservada, preservada, censurada (Shattuck, 1996. Rescher, 1987), tendo como patrulheiros os especialistas e as entidades que os abrigavam. Relembrando o relato do Gênesis, sobre o “pecado do conhecimento”, a mensagem era similar: quem sabe pensar está acima dos outros e pode até mesmo rebelar-se contra seu criador. Conhecimento seria, em si, uma centelha divina que perdura na mente humana, mesmo depois do pecado. Os “representantes de Deus” foram, no modernismo, substituídos por representantes do conhecimento, tendo como pastores maiores os doutores e como igreja central a universidade (Collins, 1998. Demo, 2004. Andrew, 2009). Conhecimento é energia tão fundamental e disruptiva que a sociedade se preocupa também em domesticá-la, já que se teme a quem sabe pensar, porque saber pensar não é só questão de inteligência, é também de poder. Não se teme a um pobre com fome, que facilmente se acomoda ao receber comida. Teme-se a um pobre que sabe pensar, porque questiona o sistema que o faz pobre. Este “contra-poder” aparece na história humana em iniciativas de excluídos que conseguem confrontar-se com seus opressores (Freire, 2006), passo indispensável para não esperar a libertação do próprio opressor (Demo, 2007). A emancipação exige a habilidade de se confrontar, no sentido de saber questionar a condição dada, tomar o destino em suas mãos e virar a história: a energia vital desta virada é saber pensar (Demo, 2009). Faz parte do saber pensar fazê-lo em liberdade: a mente livre é sua casa. Por isso, “liberdade acadêmica” sempre foi fundamento intocável da educação e da universidade e dos “intelectuais” em geral. Nisto igualmente são temidos, porque daí provém o questionamento do status quo, ainda que este questionamento possa ser apenas “intelectual” (Demo,1982; 1988). A mente humana tem, entre suas capacidades, a de nunca estar satisfeita, porque saber pensar implica igualmente saber ir além do que está dado e especular, imaginar, fantasiar o que poderia ser (utopia) (Demo, 1973). Daí provêm as tecnologias, signo maior de um ser que não se basta. Como reza a Bíblia, quer ser deus, como aparece freqüentemente na ficção científica: a capacidade de manipular o mundo e suas leis para se poder fazer o que bem se entende.

Esta rebeldia, entretanto, tem seu lado sombrio. Primeiro, como se alega em sociologia, o revolucionário de hoje será o reacionário de amanhã, desde que chegue ao poder. Já cansamos de ver isso na história (Holloway, 2003). Quem sabe pensar, nem sempre gosta que outros também saibam pensar. Segundo, questionar dificilmente vem acompanhado de autoquestionar-se. A hipocrisia corrói as entranhas do saber pensar, tornando-o autodefesa e artimanha. Bastaria observar os procedimentos de antigos escribas e pajés, e do abuso do saber especializado hoje. O sistema educacional, em grande parte, abriga a artimanha do domínio das mentes (Demo, 2004), através de procedimentos disciplinares, acerbamente criticados por Foucault (2007). Por ser auto-referente e não permitir acesso externo direto, a mente humana facilmente se apresenta como habilidade dúbia: o que está na mente do outro se pode, no máximo, induzir, não saber. Ao mesmo tempo que podemos produzir conhecimento de qualidade e também compartilhá-lo com os outros, podemos, não menos, nos apropriar desta produção, ou deturpá-la, manipulá-la em proveito próprio. Segundas intenções freqüentemente são as primeiras. A mente humana não é equipamento que procede de maneira neutra, objetiva, porque não se porta como expectadora, recipiente, absorvedora, mas como dinamicamente participativa daquilo que entra na mente. Entender a realidade não é fazer dela cópia, representação direta, mas reconstruir imagem sob risco próprio. Como sugere a autopoiese, torna-se quase impossível distinguir entre realidade e alucinação (Maturana, 2001), pois o critério de distinção poderia estar alucinado. Do que está na mente a única instância é a própria mente, ainda que, vivendo em sociedade, surge sempre a possibilidade natural de coordenação das mentes, resultando disso percepções socializadas do que é realidade. Na prática, não vemos as coisas como são, mas como somos (Demo, 2009).

A mente é dinâmica manipuladora da realidade, ao trabalhar com percepções construídas de maneira auto-referente. No entanto, esta manipulação possui igualmente seu lado não acessível à própria mente, já que esta, no processo evolucionário e cultural, não se inventa. Não inventamos, por exemplo, a linguagem, a recebemos no contexto de uma cultura dada e da qual somos parte e usuários, em parte “usados”. A mente não inventa o que quer, mas o que é viável evolucionária e culturalmente. Isto não desfaz sua capacidade criativa, mas a circunstancia em dinâmicas relativas, como aludia Barthes com a tese da “morte do autor” (1968). A visão socrática do conhecimento pode ser corretivo pertinente: quem saber pensar, sabe sobretudo que não sabe tudo; precisa, antes de tudo, questionar o saber pensar. Isto não resolve a questão, como se a mente pudesse “saber-se” por inteiro, mas permite avançar com cautela e coordenar-se melhor com outros modos de saber pensar. A face mais interessante deste imbróglio é a “arte de interpretar” (Foucault, 2004. Gadamer, 1997), reverberando o lado sempre original da mente: embora nenhuma seja evolucionária e culturalmente original, o é em sua individualidade e subjetividade, não havendo, jamais, duas interpretações iguais, mesmo quando se trata do mesmo sujeito. Por exemplo, se perdemos um texto digitado no computador e temos, depois, que refazê-lo, não há a menor chance de que possamos repor o mesmo texto. Será outro texto, por mais similar que seja. A mente humana é de tal modo plástica, jeitosa, criativa que produz música, poesia, piada, arte, e também ciência e matemática.

A evolução da wikipedia ilustra, com cores muito vivas, uma proposta de produção de conhecimento mais visivelmente conturbada e criativa, em parte retomando um desiderato antigo da enciclopédia (reunir todo o conhecimento humano disponível), em parte refundando a epistemologia, tornada a agora de acesso generalizado.

 

 

 

II.   UTOPIAS E UTOPISMOS

 

 

 

Dispensando teorizações mais complexas, entendo por utopia a criação constante na história humana de mundos alternativos que, embora irrealizáveis (são idealizações), fazem parte da realidade em sentido negativo: são fonte permanente do questionamento do que aí está. Por exemplo, aquela cidadania perfeita, na qual todos se organizam e participam, e controlam eximiamente os mandantes, não existe na prática, mas dela retiramos a força para continuar lutando por cidadanias mais qualitativas. Entendo por utopismo a pretensão descabida, em geral ditatorial, de implantar utopias na prática, como, por exemplo, tratar a todos de modo perfeitamente igual. O resultado ditatorial é que, desconhecendo as diferenças, trata-se de modo igual gente diferente, redundando em injustiças ainda maiores. Faz parte do utopismo também considerar situações históricas como ideais, obscurecendo sua relatividade e incompletude, servindo como exemplo recorrente a expectativa vastamente proclamada nos Estados Unidos de melhor democracia do mundo (Friedman, 2005). 

A wikipedia guarda uma utopia notável, maravilhosa, sensacional e que galvaniza milhões de contribuintes, mas vira utopismo, quando se apresenta como modelo cabal de enciclopédia ou ignora suas ambigüidades na construção e institucionalização do projeto. Longe de uma comunidade apenas orientada pela cooperação de boa fé, ela oferece o espetáculo dantesco de vandalismo insistente e de disputas dramáticas por poder, mostrando que rivalidades a constituem também. O abate da autoridade é slogan retórico e serve para encobrir entendimento conveniente (farsante) do exercício do poder. Se Foucault estivesse vivo, iria divertir-se às gargalhadas com tais ambigüidades, por mais que se possa criticá-lo de obsessão demasiada pelo tema e principalmente pela pretensão de monopólio do espírito crítico (O’Neil, 2009:72-73. Spariosu, 2005; 2006). De certo modo, o fez Bourdieu (1999), com percepção aguçada da dominação em sociedade e suas artimanhas. De fato, ainda que não seja o caso transformar poder em obsessão analítica, como ocorreria em sociologia (Demo, 1973; 1988), não se escapa de reconhecer que é tema sufocante. Se não gostamos do tom de certa “defesa” da autoridade legítima em Weber (1978), porque nos atrai o canto da sereia da comunidade sem autoridade, uma percepção (mais) realista do processo de socialização sugere que poder faz parte da “estrutura” social das sociedades conhecidas. Na “dialética histórico-estrutural” (Demo, 1995), tento compor esta ambigüidade angustiante para a análise sociológica: de um lado, sociedade é dinâmica histórica, tanto por ser parte da natureza sempre em vir-a-ser, como por ser parte de fenômenos históricos, todos marcados pela passagem, provisoriedade, incompletude. Isto permite asseverar que poder é sempre dinâmica natural e histórica: periclitante, temerosa e temerária, sujeita a mudanças constantes, nunca completa e definitiva. Todos os poderosos passam, mesmo que durem muito, também expressões multimilenares como o patriarcalismo. De outro lado, poder é parte da estrutura da sociedade, um dos componentes recorrentes de suas dinâmicas, um dos pilares em torno dos quais as dinâmicas se fazem e desfazem.

Teorias do caos estruturado (Demo, 2002) sugerem que mesmo uma dinâmica caótica revela alguma estrutura: toda dinâmica apresenta recorrências e que são mais bem estudadas pela ciência que, por conta do método, aprecia o que é invariante nas dinâmicas; acaba estudando o que não é dinâmico nas dinâmicas (Massumi, 2002). Na natureza e na história há modos de ser e modos de vir-a-ser, o que permite teorizar sobre regularidades ou recorrências, ainda que este ordenamento, como diz sarcasticamente Foucault (2000), seja produto mental. Esta percepção permite engolir que poder é uma das estruturas sociais com as quais sempre nos deparamos, sendo mais ajuizado partir dele do que prometer sua extinção, até porque analistas ou revolucionários que assim procedem (querem acabar com o poder) sempre morrem antes. Este reconhecimento é arriscado, porque facilmente pode desandar em promoção do poder, tomando-o como imutável, intocável. É preciso, então, segurar nas mãos duas rédeas dialéticas – histórica e estrutural – para podermos cavalgar uma dinâmica complexa não linear de maneira mais aproximadamente realista.

Os wikipedianos facilmente se enrolam em discursos utopistas e salvacionistas, conduzidos por pretensões utópicas em si interessantes. É fenômeno de rara beleza a interatividade na internet, na qual todas as relações e clivagens parecem “aplanar-se” (Friedman, 2004), e que proporcionou chance incrível de construção de conhecimento a infinitas mãos. A participação de todos (desde que tenham computador e internet!) representa a “riqueza das redes” (Benkler, 2006) e um estilo de sociedade “informacional” (Castells, 1997) que pode abrir grandes avenidas para processos participativos legítimos e produtivos. A isto acresce a devoção da geração net, marcantemente embasbacada com o mundo virtual e que lhe faz parte cada vez mais, sem volta (Tapscott, 2009. Winograd & Hais, 2008), introduzindo em suas vidas estilos alternativos de cooperação em grande dimensão. A questão é não perder de vista a montanha de problemas que também arranjamos, seja porque a internet é igualmente um “lixão”, seja porque é bem possível estar só na multidão virtual, seja porque, entre interações positivas, há outras destrutivas, balançando entre “tecnofilias” e “tecnofobias” (Demo, 2009a). Como o mundo virtual é tramado por dinâmicas ambíguas e dialéticas, não cabe só apreciar ou só detestar, mas tomar como unidade de contrários. A wikipedia declama, naturalmente, suas virtudes, em nome de suas utopias, mas tende a ignorar impasses, contradições, tumultos, para fazer boa figura, por vezes em flagrante hipocrisia. Poder abriga tendências hipócritas incontidas, porque precisa aparentar – para os incautos – que só quer seu bem. Seus líderes carismáticos, ironicamente chamados de “ditadores benevolentes”, facilmente extrapolam todas as expectativas democráticas e comunitárias ao permanecerem no poder de maneira mais ou menos vitalícia e incontestada, provocando em seus liderados relações histéricas. Este fenômeno facilmente recorrente já seria suficiente para indicar o quanto a prática está distante da teoria, já que se trata de comunidades por vezes muito produtivas, empenhadas e comprometidas numa obra comum, mas manietadas a alinhamentos inacreditavelmente rígidos[3].

Quando se ignora o poder, faz-se apenas o que os poderosos querem. A natureza, no entanto, insinuaria que seria viável imaginar um estilo de autoridade libertadora, à la Paulo Freire (1997) e que faria parte da “pedagogia”: todo professor é autoridade, mesmo que não queira assim ser visto; todavia, a pode exercer de modo que fomente a formação da autonomia de seus alunos. A sociologia da educação é propensa a ridicularizar esta expectativa (Demo, 2004. Bourdieu & Passeron, 1975), em uníssono com Foucault (2007), porque tende a ressaltar seu lado socializador, domesticador. No entanto, o que a sociologia empurra para um canto (reprodução), a natureza parece realocar em certo meio termo: todo ser vivo nasce em ambiente de dependência aguda, fatal, de seus procriadores, mas, convivendo com eles e com a realidade circundante, constroem oportunidades de autonomia e que eclodem, com o tempo, na urgência de vida própria. Assim, estaria inscrita na mente do ser vivo esta ambigüidade dialética: precisamos de autoridade que fomente a autonomia e precisamos de autonomia que se compatibilize com autoridade. Toda situação de dependência clama por autonomia; toda situação de autonomia implica dependência. Ocorre que, por laivo sociológico, tendemos a estigmatizar o lado perverso da autoridade, também para reagir à visão weberiana entendida por muitos como um preito à autoridade (Demo, 1973). Dialeticamente falando, poder é dinâmica dialética, ambígua, contraditória, na qual há dois lados sempre, mesmo que um deles experimente condição de submissão profunda. O lado de baixo não é descartável, secundário, mas integrante da unidade de contrários. Tanto é assim que é possível, dependendo das circunstâncias e do saber pensar dos dominados, mudar a situação: é sempre cabível o poderoso perder o poder. Esta abertura intrínseca de dinâmicas dialéticas, no entanto, precisa ser balanceada com a possibilidade não menos comum de o novo poderoso ser ainda mais virulento que o anterior. Toda crítica do poder postula poder!

Esta condição parece clamorosamente típica da wikipedia. Seus discursos libertários do software livre, da produção cooperativa, da interação desimpedida, do abate da autoridade acabam produzindo uma cortina de fumaça para encobrir o quanto contribui para justificar o mercado liberal, a reconstrução de alinhamentos autoritários internos, a solidificação de burocracias renitentes, a ideologia da liberdade cerceada. É impressionante como a wikipedia em apenas oito anos de existência passou de uma comunidade onde todos podem editar sem peias, a outra repleta de regras e hierarquias, caminhando – assim parece – rumo a textos cada vez mais protegidos, talvez já finais, ou seja, não mais abertos à edição por todos. A metáfora do “ditador benevolente”, ainda que honrada por exemplos edificantes (Wales, em especial), torna-se sarcasmo gritante face às confusões crescentes e tumultuadas no interior dessas comunidades que, a par da obra comum, luta-se por ocupação de espaços, por vezes desonestamente. Interessa-me aqui comentar a utopia do texto sempre aberto, uma das mais atraentes e brilhantes da wikipedia.

Considero esta visão uma das mais fascinantes da wikipedia, pois apanha em cheio a dinâmica disruptiva do conhecimento, que não é pacote, mera informação, coisa armazenada, mas gesto incessante de desconstrução e reconstrução. Apanha igualmente a energia infindável e profunda, suave e forte, da autoridade do argumento que, ao apresentar-se, constitui uma “força sem força”. É o tipo da autoridade não autoritária, porque sua autoridade é de mérito do argumento mais bem fundamentado, tão bem fundamentado que pode sempre ser reconstruído. Inicialmente pelo menos, a wikipedia tinha esta visão de seus textos: em progresso infindável, sem formato final, aberto à reconstrução de todos sem peias. Este estilo de “fundamento sem fundo” (Demo, 2008) elabora uma expectativa dialética da produção de conhecimento que contrasta ostensivamente com outras inseridas na wikipedia de teor modernista e positivista, tal qual a noção de enciclopédia como guarda do conhecimento disponível, ou de neutralidade de sua produção pelos contribuintes, ou de verificabilidade dos conteúdos dos textos. A noção de conhecimento como dinâmica desconstrutiva/reconstrutiva é traída aí em nome de um estilo estabilizado, congelado e definitivo que já se poderia “preservar”. Enquanto na promessa dialética “todos podem editar livremente” se promovem textos sempre abertos e que encontram nesta abertura uma de suas qualidades mais marcantes, nos procedimentos metodológicos esta dinâmica acaba aprisionada por estruturações reativas. Uma coisa é entender enciclopédia como repositório do que já se fez – por isso, não cabe pesquisa original, mas compilar o que está disponível –, outra coisa é entender como referência de incessante reconstrução do conhecimento, na qual o repositório disponível é infinitamente recriado. Esta talvez tenha sido a maior novidade e invenção. Mesmo que não caiba pesquisa original, por alguma razão que não alcanço perceber, todos os textos são expressão viva de processos interpretativos, re-interpretativos, contra-interpretativos, tal qual o “remix” da internet (Weinberger, 2007. Latterell, 2006). A wikipedia seria uma fábrica em funcionamento 24 horas por dia, 365 dias por ano, não um mausoléu. Quando menos, isto desvela outra marca brilhante: os textos seriam atualizados naturalmente na própria dinâmica de sua reconstrução sem fim.

Mas há outra maravilha: se todos os textos estão sempre abertos à reconstrução de todos, o texto que mais chance teria de merecer a atenção seria aquele mais bem argumentado, sem que daí decorresse qualquer formatação definitiva. Seria apenas menos provisório, porque deteria melhor fundamentação. Considero esta face uma propriedade pedagógica inestimável, porque, como diria Habermas, na esfera pública democrática e eticamente estruturada, vale a “força sem força do melhor argumento” (1989). Como não cabe o argumento de autoridade, nem qualquer imposição autoritária, ser ouvido só poderia ser questão de mérito de quem se faz ouvir, não gritando, vociferando, agredindo, ofendendo, mas argumentando. O texto que desfila pela passarela com maior consistência e permanência seria, naturalmente, aquele que merecesse este respeito da comunidade. Este tipo de texto particularmente qualitativo não reivindica nenhuma permanência estável, muito menos definitiva, mas a comunidade o muda dentro do mesmo contexto de profundidade e acuidade, porque a uma obra prima cabe reconstrução como obra prima também. Assim ocorre com teorias importantes: todas são incompletas, datadas e localizadas, mas algumas sobrevivem aos tempos, merecendo a atenção por conta de sua qualidade. São reconstruídas também, porque isto é do negócio, mas suas reconstruções precisam deter qualidade similar. Textos irrelevantes atraem mudanças irrelevantes, ou permanecem estáveis porque não merecem atenção.

Com o tempo, porém, a wikipedia foi cansando de tanta reconstrução de textos, levada igualmente pelos azares do vandalismo, ao lado do concurso de amadores com pouca qualificação. A tentação do texto definitivo retorna com força, em parte porque alguns textos podem ser tão bem feitos que poderiam permanecer assim por algum tempo, mas em parte por subordinação positivista a um estilo de produção que foge de ser discutida. À medida que a wikipedia se aproxima do formato tradicional, inclina-se a repetir o mesmo modelo de conhecimento, perdendo sua dinâmica disruptiva. Chocam-se aí dois mundos acadêmicos: um mais moderno, movido pela expectativa do conhecimento formalista e estável, capaz de dar conta da realidade assim como ela é; outro pós-moderno, impulsionado pela dinâmica complexa não linear de elaborações sempre abertas, cuja validade é relativa, datada e localizada, mas em permanente reconstrução. A energia disruptiva da wikipedia parece estar se cansando...

Não estou aqui procurando uma “solução” (unidade de contrários não é solúvel), mas uma acomodação dialética, possivelmente mais realista. De um lado, há que se respeitar a proposta utópica de crítica cerrada ao poder, mesmo do poder legítimo. Como sugere Boehm (1999) em sua análise de povos “primitivos” (da época nômade), “falar mal dos poderosos” é obrigação cívica, para evitar que o poder lhes suba à cabeça. O próprio poder legítimo, sem crítica cerrada debaixo para cima, tende a amealhar privilégios, porque a tentação é quase irresistível. De outro, estão dinâmicas de poder que, além de componentes naturais e legítimos, poderiam ser vistas como “pedagógicas”, porque envolvidas no processo de formação da autonomia. Poderíamos ver isso, com devida cautela, na liderança de Wales na wikipedia: embora a noção de “ditador benevolente” já seja suficientemente sarcástica, sua presença possui faces muito positivas, responsáveis em parte pelo êxito da empreitada. Ainda assim, não posso deixar de reconhecer que “defender poder” é quase sempre um suicídio.

 

 

 

III.   NEUTRALIDADE MAIS QUE ENGAJADA

 

 

 

A wikipedia é uma enciclopédia, e, como é da tradição enciclopédica, significa esforço de “compilação” do que existe. Tomado isto ao pé da letra, segue que seu conteúdo é típico “remix”, ou, reinterpretação das interpretações, discurso de discursos. Não caberia pesquisa original, a não ser se fosse já algo compilado. Sendo livre a edição, pelo menos em certo sentido, as compilações admitem, naturalmente, níveis muito diferenciados de qualidade, predominando facilmente as mais banais ou em torno de temas banais. Dificilmente Sócrates receberia maior atenção do que Sílvio Santos. É problema na wikipedia, certamente. No entanto, pode-se discutir o que seria propriamente “compilar”, aparecendo dois extremos: textos banais e sofisticados. Mesmo fazendo uma compilação da biografia de Sílvio Santos, pode ser conduzida com grande acuidade, senso crítico, elaboração meticulosa, demonstrando autoria visível. Por outra, pode-se fazer uma compilação medíocre de Sócrates. Em países avançados, esta questão é posta para os jornalistas com particular ênfase. Entre nós, um jornalista facilmente aborda qualquer assunto, porque tem formação qualquer. O resultado disso são entrevistas inomináveis, nas quais as perguntas, em vez de propor análises pertinentes do entrevistado, apenas revelam a futilidade do entrevistador. Quanto mais o assunto é complexo, no entanto, tanto mais surge o desafio de “especialização” do jornalista, como é o caso notável dos jornalistas “científicos” (que trabalham ciências naturais, por exemplo), exigindo-se deles altas credenciais acadêmicas, como doutorado nessas áreas. Supõe-se que, para falar de ciência, é imprescindível conhecimento especializado, mesmo tratando-se de compilação para a enciclopédia. É o que fazem as enciclopédias tradicionais, nas quais trabalham, como regra, apenas especialistas.

Por trás desta questão está uma discussão infernal em torno da “especialização” (expertise), em geral não apreciada pelos wikipedianos que fazem edições sem preocupar-se com isso. Há autores que não vêem problema nisso, porque apostam na “crowdsourcing”, confiantes no fenômeno da emergência ou no efeito-piranha. Aposta-se no processo natural de evolução que elabora níveis ulteriores/superiores, como o surgimento da vida. Surgem chances de criatividade, não do nada, mas da reconstrução dos componentes dados. A inteligência seria resultado deste processo emergente, por alguns visto também no universo como computador (Gardner, 2007. Wolfram, 2002), do que seguiria, igualmente, que o computador, um dia, também viria a tornar-se inteligente (Kurzweil, 2005). Alguns analisam a evolução natural como marcada intrinsecamente pela produção emergente da vida e da inteligência (Wright, 200. Jensen, 1998. Morowitz, 2002). Sem avançar mais nisso, interessa-me apenas delinear este tipo de expectativa que se tornou notório com o texto de Rheingold (2002) sobre “smart mobs” (multidões espertas), sugerindo que pessoas simples podem produzir textos inteligentes, desde que isto ocorra no contexto emergente da colaboração de todos.

A academia mantém suas suspeitas, porque a tradição modernista da produção científica a prende ao especialista credenciado (doutorado ou coisa que o valha), de estilo disciplinar. O questionamento da disciplinaridade da ciência (Demo, 2000) indica tratar-se de procedimento excessivamente reducionista, se tomarmos em conta que a realidade nunca é disciplinar. Seu tratamento dito científico o é, por apegar-se ao método analítico, que imagina entender a realidade recortando-a em partes subseqüentes, até a um nível último, onde se abraçam ontologia e epistemologia (a realidade no fundo seria simples e sua explicação também). Não se trata de rejeitar o reducionismo por completo, já que se aceita ser toda teoria naturalmente reducionista, porque idealiza a realidade em um modelo simplificado (Haack, 2003. Giere, 1999. Demo, 2000b). Rechaça-se o reducionismo sem autocrítica, por pretender fazer coincidir o discurso científico com a realidade analisada sem mais. Levando-se ainda em conta a querela em torno da interdisciplinaridade, em geral pouco produtiva, além de banal (Demo, 2000), restou a impressão de que dispensar a especialização implica a banalização do conhecimento: conhecimento aprofundado é sempre especializado. Enquanto se repele a disciplinarização do conhecimento, parece difícil escapar da especialização, por mais que esta tenda a constituir o “idiota especializado” (sabe tudo de nada). No outro lado, está o “especialista em generalidades” (sabe nada de tudo) e que, bem observado, não passa também de um “especialista”, como se vê claramente no “médico generalista” – não é aquele que, não sabendo medicina, faz qualquer coisa; muito ao contrário. Ademais, se aceita, modestamente, que a interdisciplinaridade não pode ser obra de uma pessoa, mas de um grupo de especialistas (trabalho em equipe). Ao formar-se uma equipe interdisciplinar, nota-se imediatamente que a expectativa de cada membro é de que o outro tenha conhecimento especializado, não fazendo sentido cada um penetrar – como generalista – na seara do outro.

Não se podendo evitar a especialização (os problemas a serem analisados possuem marcas especiais, não apenas gerais), seria razoável concertar as coisas: sem prejudicar a verticalização do conhecimento, ampliar a horizontalização (mais leitura, discussão conjunta, diversificação de interesses). Como mostra Santos, com suas teses da multiculturalidade do conhecimento, da ciência como senso comum e das epistemologias alternativas (1995; 2004; 2009; Santos & Meneses, 2009), o conhecimento científico é um exemplar no mundo vasto dos conhecimentos possíveis, ainda que seja amplamente dominante na cultura eurocêntrica. Seria, então, viável desenvolver a noção de conhecimentos rivais, não fincados apenas em expertise, mas produzidos colaborativamente, como pretende a wikipedia. Este tipo de conhecimento não substitui o especializado; não faria sentido tentar, pois tem outro significado, mais próximo do que seria, por exemplo, uma “compilação”. Numa enciclopédia não “está” o conhecimento da humanidade, pois conhecimento “não está”, sendo dinâmica interminável de desconstrução/reconstrução. Está aí apenas a compilação dos processos estabilizados de produção de conhecimento, no fundo, já congelados como informação. Poder-se-ia, entretanto, alimentar outra concepção de enciclopédia como dinâmica aberta de produção de conhecimento e que subsiste em discussão permanente, através de processos de edição interminável, sem estabilização à vista. O que mais se aproxima disso é a wikipedia, ainda que sua configuração metodológica se oriente por outra visão (modernista). Restaria discutir ainda se “todos podem editar”, já que, se pesquisa original fosse aceita (deveria ser aceita, creio), a presença do pesquisador devidamente formado seria imprescindível, também para não surgir logo confrontos pouco edificantes entre pesquisadores “duros”, mais rigorosos, formalistas, matemáticos, e outros “moles”, das ciências humanas (Spariosu, 2006). O que “todos podem editar” seriam textos experimentais, iniciais, de pesquisadores menos preocupados com metodologia científica, do que com seu processo caótico de criatividade. De repente, isto ficaria muito bem numa wikipedia.

De fato, um dos traços mais atraentes da wikipedia é a desconstrução da academia como dona da verdade e do método científico. No surgimento da era moderna (por volta do século XVI) (Burke, 2003. Collins, 1998), a descoberta mais incisiva foi a da “autoridade do argumento” – o discurso científico se mantém, não pendurado em autoridades (por exemplo, religiosas, tradicionais, políticas), mas por força de sua argumentação. Um dos confrontos marcantes foi entre os cientistas da época que defendiam o heliocentrismo, e as “autoridades” que, por razões teológicas sobretudo, defendiam o geocentrismo. O confronto resolveu-se em favor do heliocentrismo, mesmo a contragosto do Papa. O argumenta de autoridade estaria descartado, definitivamente (Demo, 2005; 2008). Todavia, como ciência é produzida em sociedade, não escapa das marcas sociais, como mostrou magistralmente Kuhn (1975), ao reconhecer que toda revolução científica acaba se acomodando em paradigmas que a tornam cada vez mais medíocre, por tornar-se reprodutiva. Retorna o argumento de autoridade, porque o mundo da ciência é composto de cientistas que manifestam os mesmos traços de volúpia pelo poder, sem falar que conhecimento é, intrinsecamente, poder (Portocarrero, 1994). Os processos de produção de conhecimento, mesmo marcados pela liberdade de expressão naturalmente, estão eivados de interferências suspeitas de donos da verdade, até porque aí se acredita, à revelia da autoridade do argumento, em verdades finais e estáveis, uma fantasia criada pelo método científico, pretensamente neutro/objetivo.  Verdades “teológicas” foram substituídas por outras não menos teológicas (Feyerabend, 1977).

Ignora-se não apenas o contexto social da produção científica, mas principalmente o contexto hermenêutico das epistemologias plurais (Demo, 2009b): a par dos procedimentos formais (em si neutros/objetivos, porque não há uma matemática ou lógica brasileira e outra chinesa), a mente humana, sendo autopoiética e auto-referente, não reproduz textos, mas os reconstrói do ponto de vista do observador participante (Demo, 2002). A matemática usada por Einstein é a mesma de todos; ele próprio não é. Sem ele, talvez não tivéssemos até hoje o teorema da relatividade, pois este teorema, a par de sua forma, é igualmente uma reconstrução genial. Gödel, de certo modo, sinalizou isso com seu teorema da incompletude (Alesso & Smith, 2009), mas na academia modernista, positivista, persiste o discurso como produto neutro/objetivo (Demo, 1995). A wikipedia não pretende desconstruir rigores formais ou formalização como método. Satiriza a pretensão inatacável dos cientistas, em especial a venda fácil do argumento de autoridade como autoridade do argumento. Esta venda se consubstancia no apego à verdade dos fatos, esquecendo-se, como diria Popper entre outros, que mesmo fatos só são fatos a partir de um processo de reconstrução mental e à luz de hipóteses rivais/complementares. Por isso Hobsbawm (1995) fala de “breve século XX”, enquanto Arrighi (1996), de “longo século XX”! Certamente, o ambiente dos historiadores é bem diferente daquele das ciências naturais, mas também nestas as abordagens são conduzidas por aproximações hipotéticas eivadas de interpretação auto-referente. É por isso que a “teoria da evolução” (de Darwin) é tida por alguns como “comprovada” (escola de Dawkins) (1998), por outras como hipótese importante e a ser reconstruída (escola de Gould) (2002), e por outros ainda como improvável ou inaceitável (criacionistas).

Satirizar a academia não significa desprezar o que se tem feito, em especial as contribuições da tecnologia, entre elas do computador, engenharia genética, física quântica. Quer-se apenas desfazer a empáfia dos donos da verdade que, vendendo-se como arautos da autoridade do argumento, maquinam o argumento de autoridade. Em termos epistemológicos, a autoridade do argumento só pode deter validade relativa, precisamente para não virar autoridade. Qualquer produto científico que não seja apenas formal detém esta marca natural e social. No mundo da ciência há infinitas gradações, desde as mais rebuscadas, até as mais triviais, assim como numa enciclopédia podem-se achar compilações primorosas e fúteis. Desprezando extremos, seria sempre cabível admitir formatos diferenciados de enciclopédias, desde as mais requintadas, feitas por especialistas consumados, até outras mais populares, feitas por “todos que querem editar”. Neste caso, as edições serão menos “especializadas”, mas não precisam, por isso, serem fúteis, como a wikipedia, como um todo, está longe de ser fútil. Bastaria lembrar do estudo da Nature (Nature, N.d). A sátira cabe ainda mais a pretensos cientistas que se apresentam como tais, não sendo na prática autores importantes e competentes, como são os casos incontáveis de acadêmicos que, sem produção própria, dão aula a torto e a direito. A nova geração está cansada deste disparate, embora possa responder a um extremo com outro (Tapscott, 2009. A vision, 2009), desprezando apressadamente a expertise.

A hipótese de que uma multidão de amadores poderia produzir alta qualidade ainda é obscura (Keen, 2007. Bauerlein, 2008), também porque a hipótese da emergência se aplicaria a processos evolucionários de bilhões de anos. Neste sentido, a crítica pode ser procedente: na wikipedia há bem mais animação comunitária do que qualidade acadêmica. É lindo galvanizar tanta gente, mas isto não garante qualidade, muito menos substitui a expertise. O que a wikipedia sugere é que, “todos podendo editar” (hoje isto tem validade bastante mais relativa), é possível oferecer produtos respeitáveis, também porque no meio de “todos” há os especialistas e que tendem a assumir os textos mais complexos. “Todos” podem compilar uma biografia de Silvio Santos, mas não sobre física quântica. Tomando-se uma dimensão mais popular da enciclopédia e que admitiria estilos mais flexíveis de compilação, a wikipedia tem-se demonstrado útil, produtiva e convincente, além de atualizada. Proibir seu uso para fins de estudo e pesquisa parece fundamentalismo tolo. O que cabe dizer sempre é que a wikipedia não substitui outros formatos de enciclopédia. 

 

 

 

IV. REBELDIA REGULADA

 

 

 

As três regras metodológicas podem, a esta altura, ser questionadas mais detidamente. NPOV (ponto de vista neutro) representa um preito ostensivo ao positivismo, em si compreensível nos Estados Unidos, a pátria maior da wikipedia. Ainda que se conceda que não poderia existir neutralidade, usa-se este jargão para empurrar as discussões para algum consenso, em nome de alguma verdade, nunca definida mais de perto. Na prática, a proposta se deve ao temor da discórdia, esperando-se que, tendo boa vontade, todos iriam se encontrar em algum lugar tranqüilo. A contradição é flagrante e claramente sarcástica: de um lado, se todos podem editar, isto representaria naturalmente a diversidade de pontos de vista; de outro, espera-se que tudo isso se acalme num texto final de um único ponto de vista; no entanto, se todos podem editar sempre, não haveria texto final, mas em progresso incessante; nem se poderia imaginar que os textos, oriundos de incontáveis pontos vista, acabassem como peças sem ponto de vista. Colidem aí dois desideratos irreconciliáveis: saber discutir e saber alinhar-se. Ora, quem sabe discutir, não se alinha; quem se alinha, não sabe discutir. A wikipedia é a cara disso, quer queira ou não. Diria, de meu ponto de vista, que é das marcas mais saudáveis dela, partindo de outra visão. Se a ciência produz textos sempre discutíveis, formal e politicamente, eles podem deter grande qualidade de elaboração, precisamente porque permanecem abertos a elaborações ulteriores, não porque se chegaria a algum patamar “neutro”. O critério maior de cientificidade é a “discutibilidade” dos textos em nome da autoridade do argumento. O exercício do aprimoramento das edições, desde que feito sob a égide da autoridade do argumento, é dinâmica de rara beleza pedagógica, porque não só promove a habilidade de produzir conhecimento, como promove, ainda mais, um estilo de cidadania capaz de negociar consensos aprimorados, ainda que nunca finais (Demo, 2008). NPOV aparece na cena como excrescência, um alinhamento a metodologias positivistas e que em nada funciona neste tipo de ambiente. É farsa cômoda.

Quanto à verificabilidade – V – a crítica é similar: os textos científicos não são propriamente verificáveis ao pé da letra, porque esta presunção supõe correspondência direta entre teoria e realidade, algo impraticável em nossa mente auto-referente e autopoiética. Podem, sim, ser retestados, controlados, cotejados, mormente reinterpretados, contra-interpretados.  Tal percepção da verificabilidade esconde, ademais, a mediocridade gritante da compilação alinhada a fontes muitas vezes impróprias. O alinhamento a fontes facilmente atropela a pesquisa mais detida que questiona as fontes. Esta tática tem seu lado tranqüilizador: impedir que as edições se façam à-toa. No entanto, pode-se imaginar coisa bem melhor, quando se mantêm os textos discutíveis por força da autoridade do argumento: até mesmo texto sem cotejo de fontes poderia ser aceito, desde que bem argumentado; alguém poderia elaborar uma bibliografia de Silvio Santos de próprio punho e que, sendo melhor que todas as existentes, não ganharia nada em referenciá-las. Poderia parecer estranha esta biografia sem citação – pode-se, claro, sempre citar, desde que não vire fetiche – mas sua qualidade depende, antes de tudo, da pesquisa acurada e espelhada em dados testáveis, além do esmero do texto elaborado. A referência fundamental aí seria a fontes adequadas, compulsadas para levantar a vida de Silvio Santos.

NOR (sem pesquisa original), por sua vez, ainda que sirva para evitar “invencionices” de toda sorte, tende a ser restritiva desnecessariamente. Há certa desconfiança de que, podendo todos editar, as contribuições podem não ser brilhantes, em especial quando se alega pesquisa própria. Espera-se disso, porém, justa e contraditoriamente o brilhantismo da wikipedia. Ainda, ao castigar a “originalidade”, machuca-se a autoria, exasperando o lado medíocre da compilação. Daí segue uma enciclopédia eivada de textos dúbios, ao lado de outros muito bons, como é a wikipedia (Lih, 2009). Ficaria melhor abrir a possibilidade de textos “originais”, desde que dinamizados pela autoridade do argumento. Ademais, persistindo a repulsa aos expertos, corre-se o risco flagrante de fazer dos textos exercícios amadores, ou “discursos de discursos” indefinidamente. Este problema volta na questão da notabilidade, preferida à relevância: a comunidade que não se orienta pela autoridade do argumento facilmente adota temas fúteis, perdendo-se em diatribes pouco aproveitáveis. Compilação que se preza indica autoria, não plágio. Para dar um exemplo corriqueiro: em ambientes positivistas, “revisão de bibliografia” tende a ser gesto descritivo, cumulativo, reprodutivo, agregando pedaços de autores disparatados; em outros ambientes, pode ser iniciativa compromissadamente reconstrutiva, dentro do desafio de ler autores para se tornar autor, ou “contraler” (Demo, 1994; 2008a).

A wikipedia descobriu logo que o concurso dos contribuintes será bem mais importante que regras metodológicas. De certa forma, instigou a produção incipiente, apostando em que os outros editores, entrando em cena, acabariam tornando esta produção incipiente em texto respeitável. Confia-se, em excesso, na participação como tal, supondo igualmente a boa fé de todos. A experiência malograda do Los Angeles Times (wikitorial sobre a guerra no Iraque) foi marcante no sentido de mostrar que não se pode confiar tanto assim na “mágica” da wikipedia. Não se critica este gesto de boa vontade, porque pior seria imaginar, previamente, que todos são malandros, mal-intencionados, até prova em contrário. É muito interessante a expectativa de um ambiente caótico, marcado pela liberdade de expressão, repleto de vozes diferenciadas, representando nisto também a biodiversidade. O problema é que se escondem as contradições deste tipo de dinâmica: de um lado, instiga-se que todos participem; de outro, desconfia-se que, onde todos participam, o resultado pode ser frívolo; para evitar isso usam-se dois discursos incompatíveis: participar à vontade, mas respeitando regras cada vez mais rígidas. Parece salutar a preocupação em manter os procedimentos como instrumentais, valorizando-se o conteúdo criativo. Mas a história da wikipedia indica que os procedimentos estão se tornando a própria finalidade maior, a ponto de sabotar um dos pontos de partida mais iluminados: os textos são sempre abertos. Buscam-se mentes indomáveis, desde que aceitem ser domadas no processo.

Entendo que as três linhas metodológicas, ainda que detenham noções práticas, são um cardápio indigesto, formulado em ambientes pouco iluminados metodologicamente e muito alinhados ao positivismo dominante. O que incomoda é que tudo isso se arma para manter o princípio de que “todos podem editar”, uma contradição vagabunda. De um lado, busca-se um estilo candente de produção de conhecimento, sempre aberto e atualizado; de outro, impõem-se regras que extirpam este fogo. O que a wikipedia é, em tom maior, é um campo de forças marcado por interpretações rivais e nisto criativas. A cooperação é dinamizada também pela rivalidade, porque, na natureza e na sociedade, são processos dialéticos na unidade de contrários. Incomoda na wikipedia que este ambiente facilmente desanda em vandalismo, agressão, destruição, esquecendo-se do compromisso com a obra básica: uma enciclopédia feita a mil mãos. Neste sentido, em vez de pregar alinhamentos metodológicos que apenas reforçam as rivalidades, seria mais recomendável estudar modos de convivência rival e, ainda assim, éticas. Isto aponta naturalmente para a força sem força da autoridade do argumento (Demo, 2005a).

 

 

 

V.  FUTUROS DA AUTORIA

 

 

 

A wikipedia mostra, apesar de sua história tão curta e também estrondosa, que a autoria já não é propriedade restrita a algumas cabeças privilegiadas. Na prática, é acessível a todos, mesmo na maior simplicidade, porque qualquer pessoa simples também é “autora” de sua vida. Quanto mais a autoria se fecha em certas cabeças, mais se torna argumento de autoridade, maculando seu berço embalado pela liberdade de expressão. Nesta rota, um dos serviços mais importantes da wikipedia é a popularização do “espírito científico”, considerado uma das habilidades do século XXI. Saber lidar com método científico torna-se desafio geral, como parte da formação geral das pessoas. O argumento mais à vista é sempre o do mercado: para poder competir melhor. Mas, do ponto de vista da educação, o argumento crucial é formativo, divisando aí não só a questão do conhecimento, mas principalmente da cidadania. A esfera pública não pode ser ocupada apenas pelo especialista que sabe técnicas sofisticadas da argumentação, mas por todos (“todos podem editar”). Com razão, Fraser (1992) questionou a concepção de esfera pública da Habermas, excessivamente eurocêntrica e patriarcal, refletindo, em parte, a democracia elitista e restrita grega.

O’Neil (2009) apontou para a predominância ainda masculina nos ambientes virtuais, em especial nos mais requintados, ainda que isto esteja mudando rapidamente. Neste sentido, “forças arcaicas” continuam jogando pesado, sem falar nos intermináveis vícios das democracias atuais e por isso colocadas em cheque pela geração net (Tapscott, 2009. Winograd & Hais, 2008). Há um caminho enorme a ser andado até podermos equilibrar a “igualdade de oportunidades”. No entanto, parece claro que a wikipedia tem sido um farol nesta escuridão. Continua sendo um fato que muitas mulheres têm sua autoria atrelado ao homem, à sombra dele, ou gravitando em torno dele. O machismo na internet é público e notório, a começar pela pornografia. No mundo dos hackers a presença feminina ainda é peregrina, bem como na alta ciência. Mas isto pode mudar e deverá mudar (Plant, 1999). A idéia, então, de que “todos podem editar” serve de alento à participação indiscriminada, por mais que regras crescentes restrinjam as liberdades. Em última instância, as mulheres poderiam construir sua própria proposta, uma enciclopédia voltada para sua proposta de sociedade e desenvolvimento e dotada de ambientes mais libertários, ainda que não dicotômica.

Ao fundo, porém, o mais importante é a percepção cada vez mais incisiva de que a energia rebelde, disruptiva do conhecimento questionador precisa tornar-se patrimônio público, o que demandaria, por sua vez, outro formato de enciclopédia: não um repositório compilado do que existe, mas uma fornalha incandescida e talvez ensandecida, de produção de conhecimento de utilidade geral. Não se poderia perder esta tradição virtual, embora presa a expertises raras/carismáticas: conhecimento é tão importante para a sociedade que não poderia ser apropriado, também porque, não sendo nenhuma mente original, o que se produz provém do que outros produziram e vão reconstruir. Idéias são tipicamente bem comum: não devem ser vendidas, nem compradas. Nem em termos pessoais a mente é propriedade, porque somos, em algum sentido, apenas usuários dela. Esta utopia vale a pena. Não deveria jamais ser sufocada em nome do mercado.

É claro que, tornando-se o conhecimento científico de alcance popular, as epistemologias mudam, por vezes, dramaticamente. A tendência será a construção de textos mais “populares”, de compreensão mais acessível, mais curtos (também para caberem na tela), multimodais (modulando argumentos visuais, acústicos, plásticos, movimentados), sugerindo que conhecimento que só alguns entendem não tem maior significado para a sociedade. É preciso sempre ver o que se ganha e perde. Ganha-se em acesso popular, uma dimensão inestimável. Perde-se verticalização, também fundamental. Daí segue que não deveríamos ver aí rivalidades apenas, mas igualmente modos alternativos de cooperação. O conhecimento tradicional, também o positivista, guarda seu lugar, porque demonstrou efetividade imponente. Mas deveria permitir ou promover alternativas de conhecimento, tanto como complemento, quanto como questionamento. É de capital relevância o surgimento de conhecimentos rivais, não só porque, na verdade, sempre existiram, mas principalmente porque o espaço do conhecimento não pode ser ocupado por grupos seletos e que, ao final, são gangues (Santos, 2004).

Pode-se, então, apreciar na wikipedia também seus efeitos pedagógicos em termos de autoria. Quando editores simplórios se metem a editar, pode ocorrer um desastre, naturalmente, mas também um exercício de elaboração com marca formativa, à medida que tomam contato com o espírito científico e, ao lado do método, praticam um tipo de cidadania que sabe argumentar. Este efeito é impagável: aprender a preferir a autoridade do argumento; perceber sua força sem força; apreciar consensos tão bem feitos que podem sempre ser refeitos; fundamentar de tal modo que o texto permaneça discutível, formal e politicamente. Acresce a isto certo tom lúdico: a turma se diverte, enquanto trabalha, e, ao final, aprecia o resultado – uma enciclopédia sem maiores credenciais, mas interessante, útil, criativa e sempre atualizada. Um resultado primoroso é aprender a “pesquisar” e a “elaborar”, num ambiente que empurra as pessoas a preferirem a autoridade do argumento. Neste sentido, pode-se ver aí uma chance imperdível de aprender bem, num espaço interativo, crítico e criativo.

Em seu tom pós-moderno, a wikipedia consagra a noção preciosa de que uma idéia só pode ser “crítica”, se for plural. Idéia única, sendo “idéia fixa”, não passa de argumento de autoridade. É recado crucial para “críticos” sem autocrítica, quando a crítica se torna senha de um povo eleito que se imagina ter o direito de massacrar teorias e práticas rivais. Olhando, por exemplo, a Escola de Frankfurt, o que mais chama a atenção não é uma proposta alinhada e unitária de “teoria crítica”, mas sua imponente diversidade (Darder et alii, 2009. Giroux, 2009. Freitag, 1986). A escola era preenchida de mentes brilhantes e indomáveis que promoviam um “projeto comum” tecido de maneira plural. O lado mais fecundo da teoria crítica é sua verve maiêutica da autocrítica, uma virtude em geral ausente em nossas propostas críticas, porque, ao pretenderem superar donos da verdade, se instauram ainda mais como donos dela. Teoria única, absolutamente válida, é um petardo religioso, um dogma sujo, uma tramóia violenta, por mais que tenha como objetivo abrir as mentes. Ignora, porém, como a wikipedia atual ignora, que mentes não se abrem impondo alinhamentos, censurando a rebeldia alheia, monopolizando a palavra. O tecido infinito de vozes díspares, rivais e complementares, é o texto pós-moderno, no bom sentido, certamente muito mais difícil de “gerir”. É sempre mais fácil gerir tente dócil, mesmo que se diga “crítica”. A wikipedia possui esta graça: retorna à biodiversidade da natureza, plural, esparramada, dinâmica, ambígua. Nenhuma obra final sai daí, porque toda obra é interrupção e continuação, original e surrada. “Todos podem editar” poderia ser traduzido como “todos podem sempre aprender”, sem nunca chegar a algum ponto final (Grossi, 2004). Esta utopia aponta para um estilo de “qualidade humana” em processo infindável de formação aberta, crítica e autocrítica, rival e solidária (Demo, 2009c).

Tudo isso, entretanto, não encobre o tumulto desta esfera pública, porque nela não se brandem só argumentos, mas sacanagens de toda sorte. A wikipedia tem equacionado este desafio razoavelmente, mas encontra questões complicadas e cansativas, azedadas também por seus critérios metodológicos positivistas. O problema é que a wikipedia ainda não consegue apreciar uma “boa discussão”, preferindo textos “neutros”. De um lado, faz parte da tradição enciclopédica: não se dedica a discutir, mas a compilar. De outro, perde-se oportunidade ímpar de iluminar este tipo de esfera pública dedicada à boa argumentação e que sempre é um discurso “discutível”. Os mentores da wikipedia, por ranço positivista, não conseguem valorizar esta dimensão. Como é reprimida, a resposta é a contra-repressão, travestida de vandalismo e atitudes similares agressivas, destrutivas. Possivelmente seria o caso conceber outros formatos de enciclopédia, para abranger o que a wikipedia é: um fórum de discussão aberta sobre produções vigentes de conhecimento, não um sarcófago de textos em decomposição. Em geral, os temas mais caros, sensíveis, tocantes são “controversos”, porque somos, em pessoa, uma controvérsia ambulante. O desafio seria armar ambientes onde a controvérsia pudesse ser relativamente bem comportada e construtiva, podendo-se regular a si mesma em seus riscos de agressão e dissolução. Não há solução para tais riscos, mas poderiam ser “geridos” num sentido democrático aproximado. No fundo, a wikipedia caminha para um texto “estabilizado”, porque considera texto adequado aquele que já não é discutido. Na prática, o ideal seria o contrário: texto pertinente é o que suscita discussão. A beleza maior de um texto está em sua abertura promovida pela autoridade do argumento.

A wikipedia teme que este tipo de discussão aberta levaria a lugar nenhum – discussão interminável. Pode ocorrer – discutir por discutir; criticar tudo sem colocar nada no lugar. Seria de se perguntar, entretanto, se textos estáveis levam a algum lugar melhor. Levariam ao mesmo lugar da enciclopédia tradicional, um mausoléu rebuscado de textos. Não é este o destino da wikipedia, porque é uma sarsa ardente. Neste sentido, vejo com preocupação o avanço da rigidez de regras que contradizem, cada dia mais, às premissas iniciais da liberdade irrestrita de expressão. Houve um tempo em que se sugeria ignorar as regas, em nome da criatividade. Hoje é todo o contrário: só há criatividade tolerável se obedecerem às regras. Uma contradição sarcástica. Aceitar que a ciência é um texto discutível implica mudança radical de epistemologia, porque despe os cientistas de sua autoridade de experto ou de esperto. Entretanto, não é o caso agredir o especialista. Ele é figura central da produção científica. Cabe, porém, reconhecer que não preenche o espaço científico sozinho. Há outros conhecimentos rivais, também relevantes, ainda que não concorram em importância com o científico na cultura eurocêntrica.

Tudo isso desvela, quase como um tapa na cara, a politicidade do conhecimento. Primeiro, pode-se aludir ao sarcasmo contido na própria wikipedia: prega procedimentos neutros em meio ao maior tumulto das guerras de edições. Neste sentido, abriga um faz-de-conta medieval, presente em todas as esferas positivistas: usa a ideologia da neutralidade para impor o silêncio a quem discorda. Segundo, a disputa por verdades, sempre repletas de inverdades, deveria ser substituída pela disputa por argumento, inspirada na autoridade do argumento. Isto não pacifica a comunidade, porque beligerância lhe está na alma também. Mas tempera com alguma ética, para que não se matem todos, não restando ninguém para o enterro. Terceiro, apesar de todas as promessas libertárias, a wikipedia também está pendurada em carismas fortes, cuja interferência é, em geral, engolida sem pestanejar, num gesto terrivelmente pouco democrático. Submissão a carismas é comum entre libertários...

Talvez não seja para se surpreender. A busca de coerência dos textos, em sentido formal, não pode obscurecer que somos criaturas contraditórias. Nossa própria mente, como artefato fisiológico, é uma composição de camadas em parte adaptadas, em parte dissonantes, cujas energias nem sempre são sinérgicas (Lewis et alii, 2000). Pregar a democracia mantendo um sentido forte de liderança é coisa comum em nossa história. Alardear liberdade de expressão e alinhar-se a líderes carismáticos, igualmente. A wikipedia tem este defeito e esta virtude. É defeito, porque promete o que não faz. É virtude, porque reflete a algazarra humana, na qual ter voz quase sempre implica suprimir a voz do outro.

 

 

 

CONCLUINDO

 

 

 

A wikipedia mantém chefes carismáticos (O’Neil, 2009), em particular Wales, como referência indiscutível, à revelia da declamação pomposa de produção livre e igualitária. Passo a passo, o projeto foi sendo engessado burocraticamente, em parte por necessidade de organização e qualificação dos textos, em parte para superar vandalismos de toda ordem, em parte por disputas de poder. Não parece longe a possibilidade de se instaurar textos “definitivos”, que já não se poderiam editar mais, em nome de metodologias enrijecidas. Já não se aceitam mais textos anônimos. A idéia original de contar com o bom caráter dos editores está bastante arranhada, porque, embora valendo como princípio salutar de convivência, na prática tornou os textos vulneráveis em excesso. Aí parece haver uma disjuntiva: ou se mantém o compromisso original de que “todos podem editar”, deixando os textos sempre abertos, ou se avança na direção oposta de estabilizar produtos em nome da expertise. Penso que a wikipedia não deveria desfigurar-se para se tornar mais uma enciclopédia, entre tantas. Seu charme maior está no cultivo de um ambiente de produção rebelde de conhecimento, ainda que mais da ordem da “compilação” (remix). Por isso, também, não deveria pretender substituir outros projetos, mas apresentar-se como alternativa pertinente, o que, sem dúvida, continua sendo.

O abuso da liberdade não pode descambar para sua supressão. A wikipedia, mal ou bem, mostra que consensos negociados são possíveis, desde que mantidos como propostas abertas. Isto suscita a preferência pela autoridade do argumento, da qual vive a cidadania que sabe pensar. Finalmente, saber pensar desceu à terra, porque, “todos podendo editar”, tornou-se viável também para pessoas não especialistas. Deveria, porém, rever pretensões ineptas de “neutralidade” ou coisa parecida, porque isto a torna tanto mais exposta e contraditória. Os textos não são, nem de longe, “neutros”, mas disputados dentro de regras de jogo igualitárias. Em vez de alinhar os editores, seria mais interessante ensaiar um pedagogia de rivalidades éticas e produtivas, em nome do bem comum...

 

 

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[1] Crowdsourcing – agregação de conhecimento a partir da multidão; smart mob – multidão esperta, inteligente.

[2] Do grego: stigma (sinal) e ergon (ação).

[3] Dois exemplos de “abuso do poder” de líderes carismáticos: No DailyKos, Kos, ao ser questionado em suas decisões, desferiu sem mais: “First of all, no one speaks for Daily Kos other than me. Period” (O’Neil, 2009:116). Na wikipedia, Wales, após bloquear um usuário problemático, foi bloqueado por ZScout370, que, prontamente recebeu de Wales um banimento de uma semana! Em 2008, destituiu um sysop (acusado de misoginia), sem reações da comunidade, por se tratar do líder carismático (Id.,158).