FORÇA SEM FORÇA DO MELHOR ARGUMENTO
Pedro Demo (2009)
Habermas (1989; 2005) notabilizou-se, entre outras coisas, por propor uma certa restauração da “esfera pública”, inspirando-se em procedimentos democráticos e democratizantes desde a antiga Grécia, no contexto da tradição “moderna” ocidental. Embora seja sempre muito controverso definir “esfera pública” como marca da assim dita sociedade civil, também porque a definição de sociedade civil é polêmica (não há linha demarcatória clara entre o que fica dentro e fora), sempre aparece a referência a uma esfera na qual os cidadãos poderiam exercitar sua liberdade de argumentar livremente, em especial frente ao Estado (Demo, 2005). Seria, porém, uma visão míope restringir a ação dos cidadãos apenas frente ao Estado, porque não é menos decisivo controlar o mercado (particularmente o globalizado) (Dupas, 2006), em especial perante um mercado reconhecidamente lesivo ao bem comum (United Nations, 2005). O questionamento do Estado não se dirige a uma pretensa busca de o apequenar, desregular, no fundo, se possível fora, suprimir, como sugere o neoliberalismo (Oliveira & Rizek, 2007), mas de o “qualificar” para que, em vez de enquadrar a cidadania, se torne conquista da regulação cidadã. Esta é a expectativa de Habermas, ainda que lhe caibam críticas por conta de sua visão “eurocêntrica” e “patriarcal”, como sugere Fraser (1992). De fato, democracia precisa ser vista de modo multicultural e sob a perspectiva de gênero, para não se restringir a regalias de homens europeus (Pinsky, 2004. Pinsky & Pinsky, 2003). Entendo, porém, que Habermas dificilmente pode ser tachado de machista eurocêntrico por conta desta lacuna, assim como não lhe caberia a pecha de “escravocrata” ou “anti-ambientalista” só porque não insere em suas análises a questão racial e ambiental. Mas trata-se pelo menos de uma “lacuna”.
Percebo como mais comprometedora a noção de “ação comunicativa não estratégica” (Habermas, 1982), recebida por muitos críticos como ingênua (Mészáros, 2004. Sfez, 1994) e mesmo contraditória, já que desconhece sua “politicidade” (Demo, 2002). É estranha a expectativa de que o jogo da argumentação e contra-argumentação devesse ser feito por participantes “neutros”. Como sugere a análise de Boehm (1999) sobre grupos humanos primitivos em geral nômades, fazia parte de sua convivência uma espécie de “esfera pública”, na qual os membros discutiam seus interesses comuns, bem como seus líderes, procurando manter algum controle democrático sobre estes. Boehm alude a táticas deste controle, como depreciar os feitos dos líderes, exigir constantemente obras em favor do grupo, e até mesmo “falar mal”, mantendo-os em rédea curta. Este tipo de atividade cidadã não poderia ser exercido fora do contexto do jogo de poder. Mesmo assim, a proposta de Habermas é interessante e pertinente, em especial quando elabora a “força sem força do melhor argumento”, apontando para a arte de bem argumentar. Neste texto, tento explorar esta idéia, organizando como recurso fundamental do tipo de cidadania que “sabe pensar”. Esta expectativa reaparece no mundo virtual das novas tecnologias (web 2.0 e similares) (Mason & Rennie, 2008. Lih, 2009. O’Neil, 2009), em especial em exercícios de autoria individual (blogs) e coletiva (wikis): sendo o que se elabora sempre discutível e aberto, não funciona o argumento de autoridade; somente a autoridade do argumento teria chance de merecer a atenção da comunidade. Não levo adiante esta pretensão “virtual” aqui. Centro nos desafios da qualidade formal e política da arte de bem argumentar.
I. FORÇA SEM FORÇA
Pode-se, então, perguntar o que seria esta “força sem força” do melhor argumento, sugerida por Habermas. Tratando-se de uma metáfora – obra de interpretação –, cabe reinterpretá-la (Demo, 2001). A autoridade do argumento possui “força”, mas é “sem força”, alegando-se aí: i) a autoridade do argumento se sustenta por si mesma, sem ser autoritária; provém da qualidade da própria fundamentação; ii) sua força é a do convencimento como resultado da qualidade da argumentação, não do alinhamento; iii) esta força sem força seria, no fundo, a única “força” que tem força, no sentido de que, indo pelo contrário, desaparece a força em tramóias forçadas; iv) a força mais efetiva é a que não força, convencendo sem vencer, tal qual a não violência: é o tipo de violência que não usa de violência; consegue impor-se sem violentar. Tradicionalmente, uma das facetas mais interessantes desta “força” é a “retórica”, voltada para argumentar para convencer, sem vencer. Hoje, fala-se em persuasão, também no mundo virtual, em geral voltada para captar a atenção dos usuários (“captology”) (Fogg & Eckles, 2007), e tendo como objetivo “mudar o que se pensa e faz” (Fogg, 2003). Esta perspectiva alinha-se ao adverstising, enquanto outras restauram a concepção clássica da retórica (Oinas-Kukkone et alii, 2008. Bogost, 2007), inicialmente destinada a fazer da argumentação uma arte do convencimento, sem manipulação (Perelman, 1997. Perelman & Olbrechts-Tyteca, 1996). Com o tempo, os “políticos” se apropriaram da retórica que, hoje, tem sentido dúbio: não é arte de argumentar, mas de “enrolar”. Observando bem, esta visão, que subsiste desde a Grécia, reconhece a politicidade da argumentação, ou o caráter estratégico da comunicação. Argumentar nunca é apenas procedimento lógico, formal, mas confronto entre pessoas e culturas. As formalizações metodológicas podem “demonstrar”, mas convencer é outro departamento. Neste comparecem outras marcas psicológicas, culturais, políticas, relacionais, emocionais, eventuais, tipicamente não lineares, complexas. Em parte isto se deve à auto-referência da mente: não entendemos o outro a partir do outro, mas da imagem que construímos do outro. Esta condição deu origem, no feminismo, ao conceito de “standpoint epistemology” (Harding, 2004), para reivindicar que as mulheres precisam ser contempladas pelos homens a partir delas, não de posturas patriarcais. Na prática, porém, se reconhece que isto é compromisso metodológico e ético, não condição natural. Ainda assim, é reivindicação justa, no sentido de pleitear que os homens “se esforcem” por considerar as mulheres a partir delas. Em parte, isto se deve à politicidade da argumentação: argumentar também é influir, ainda que se cuide de não manipular.
Em qualquer jogo argumentativo correm linhas de força, porque isto é parte dialética das relações sociais polarizadas. Não se trata, pois, de eliminar linhas de força, mas de qualificá-las, ao contrário, neste caso, da proposta de Habermas. Na politicidade da aprendizagem, à la Paulo Freire (1997), trata-se de influenciar o aluno de tal modo que ele não se deixe influenciar. A relação pedagógica implica correlação de forças naturalmente. Não é o caso, pois, pretender extinguir a influência, mas qualificar de que influência se trata. Haveria dois tipos bem diferentes de influência: aquela que sufoca; e aquela que liberta. O educador deve saber distinguir e promover o tipo de influência necessário para mediar a emancipação do aluno. Falar de influência que liberta parece contradição nos termos, porque em geral temos de influência uma percepção linear, de cima para baixo, implicando como conseqüência a subserviência. Tomando, porém, influência como dinâmica dialética, o influenciado é componente essencial da unidade de contrários, podendo, dependendo do caso e da condição história, virar a mesa. Para o oprimido se libertar da opressão, necessita confrontar-se com o opressor (Freire, 2006), efetivando uma contra-influência, na qual consiga construir-se sujeito de história própria. Não pode esperar que o opressor seja o artífice de sua libertação, pois isto seria “pobreza política” em grau extremado (Demo, 2007). Esta dinâmica faz parte do conceito de autopoiese: os seres vivos influenciam fortemente suas crias, em especial nos primeiros lapsos de vida, mas esta influência tem como resultado normal a construção de sua autonomia. Há, pois, um tipo de influência que favorece a autonomia. Em sociedade, as pessoas não podem deixar de se influenciarem, seja se atrapalhando, seja se desenvolvendo. Quando os pais procuram trabalhar limites ao comportamento dos filhos, podem fazê-lo desastradamente, mas podem também fazê-lo construtivamente, no sentido de prepará-los para a vida (Tiba, 2007; 2007).
A trama das relações sociais nos insere em campos permanentes e diferenciados de força, de tal sorte que influenciamos e somos influenciados dialeticamente. O trabalho científico, por mais que se resguarde metodologicamente, implica esta dialética que se torna tanto mais visível na disputa por paradigmas dominantes. A assim dita “comunidade acadêmica” está repleta de rivalidades e mesmo deslealdades, porque composta de seres humanos dialeticamente polarizados (Duderstadt, 2003. Trindade, 2001). Isto transparece logo nas hierarquias em geral rígidas da carreira acadêmica, nas disputas por espaços de promoção e cargos de direção, nas classificações de títulos e certificados, na corrida por prestígio e destaque (Demo, 2004). Por se tratar de figuras dotadas, muitas vezes, de formação sofisticada, as relações podem parecer mais toleráveis, mas, no fundo, campeia a hipocrisia, também porque, tratando-se de luminares, cada qual se julga mais importante que o outro. A tudo avaliam, mas detestam ser avaliados. O que menos “vale” na Universidade é lógica, matemática, forma. Vale sobretudo ocupar espaços e amealhar privilégios, por vezes minúsculos e mesmo ridículos, mas suficientes para sair da turba ignara. Observe-se a guerra atual em torno das publicações indispensáveis para galgar postos mais elevados da carreira. Embora havendo acordo razoável em torno da necessidade de publicar pesquisa própria, instalou-se uma disputa acirrada e raivosa ao redor das várias modalidades de publicação. Antes, livro era a referência mais elevada. Como livro pode ser “qualquer coisa”, também porque, pagando, qualquer editora publica qualquer coisa, no momento empurra-se a academia para revistas de alto padrão que, a título de qualidade elevada, escondem seus “donos”. São poucas, com poucos donos, o que está tornando a ascensão acadêmica uma via crucis. Certamente, antes, era muito devassa, como na proliferação de “pós-doutorado”: nunca foi título, muito menos indispensável, mas começou a alastrar-se, chegando-se ao ponto de professores defenderem seu doutorado e já engatarem num pós-doutorado de imediato, como “enfeite acadêmico”. Não havendo controle, compadrios são comuns. Há nisto um lado coerente: a busca por excelência acadêmica, dentro de rigores metodológicos cada vez mais elevados. Esconde-se, porém, que excelência não é termo unívoco, sem falar na diversidade das áreas científicas e na tendência à colonização das ciências humanas e sociais pelas assim ditas “ciências duras”. Quando se impõe que somente artigos publicados em certas revistas de acesso rigidamente restrito contam para a carreira, e quando a preferência é dada para revistas em inglês, pode estar em jogo menos a qualificação do pesquisador, do que a construção de gargalos e filtros que não fazem mais que conservar no topo alguns proprietários da qualidade. Embora Kuhn (1975) tenha desvendado, com rara maestria, esta farsa, é hoje comum.
A academia é, como toda trama social, também uma tramóia. Embora a produção científica só possa medrar em liberdade de expressão, censura sempre está presente, pelo menos, como contraluz (Shattuck, 1996. Rescher, 1987). Conhecimento científico é tão importante que não pode ser deixado ao alcance de todos, nem pode ser objeto de interpretação livre (Manguel, 1996). Há que se seguir a interpretação oficial, como se fosse uma igreja (Feyerabend, 1977; 1979). Censura aparece nas aulas instrucionistas de professores que nada produzem e, mesmo assim, dão aula, nas orientações no espaço do mestrado e doutorado, nas quais a última palavra é sempre do orientador, nas oportunidades oferecidas/cerceadas dentro de cada departamento para cada professor/pesquisador, nas lideranças que passam a decidir quem é quem, principalmente o valor acadêmico dos outros, nos processos de avaliação e concurso cujas regras nem sempre são transparentes, nos paradigmas que se instalam e pedem obséquio. Quando Habermas fala de força sem força, primeiro, pretende afastar os tipos brutos de força, em especial movidos por artimanhas e violências, inspirados sempre no argumento de autoridade; segundo, pretende sugerir a vigência de modos de argumentação que poderiam convencer sem vencer, movidos pela qualidade aberta de sua fundamentação. Fundamentação bem feita tem “força”, como tem força a obra de Habermas. Pode-se discordar, mas dificilmente alguém diria que está mal posta, mal feita, apressada, precária. Sua força, porém, não é brutal, autoritária, mas “merecida” por conta da arte de bem argumentar.
Argumentar é um diálogo tipicamente dialético e que, em sua complexidade não linear, exige predicados formais e políticos. Quando duas pessoas dialogam, não apenas se comunicam, falam, mas igualmente se confrontam, disputam espaços e propostas, rivalizam em suas formulações, estabelecendo-se entre ambas uma complexa correlação de forças. Não se trata de negar isso. Trata-se de qualificar isso, ou seja, de pleitear que predomine a autoridade do argumento, não o argumento de autoridade. Na expressão “argumento de autoridade”, desaparece o argumento, soterrado pela autoridade. Não vale como plataforma do diálogo, porque instaura o monólogo. Na expressão “autoridade do argumento”, ressuscita o argumento porque sua autoridade é de mérito, conquistada através da qualidade da fundamentação. Por não ser autoritário, pode propor uma plataforma igualitária de diálogo, na qual, sendo recíproca a liberdade de expressão, a rivalidade não precisa humilhar, excluir. Naturalmente, quando alguém se põe a argumentar, alimenta a expectativa de poder persuadir, convencer, por conta da qualidade do discurso. No mundo acadêmico vige este tipo de “mercado”, não como o liberal que pretende convencer para vencer, mas de estilo igualitário, no qual as oportunidades se decidem pela via de propostas qualitativas. Como se vê, paira no fundo sempre a questão da qualidade, que distingo entre formal e política. É sempre um desafio definir este termo, tendo em vista que admite infinitas interpretações, no contexto de disputas incontornáveis. Faço aqui apenas uma aproximação de estilo dialético.
II. QUALIDADE FORMAL
Por qualidade formal entendo a marca argumentativa da fundamentação acurada e persistente, e que, por isso mesmo, não reconhece fundo último (Demo, 2008; 2008a). Não temos como oferecer fundamentações finais, porque, sendo todas parte da linguagem, nem começam, nem acabam, apenas continuam, perecem e se refazem. Esta circularidade hermenêutica é constitutiva, porque toda análise postula componentes ainda não analisados, assim como toda definição usa termos ainda não definidos. No pano de fundo, há sempre a querela insolúvel em torno do que se imagina ser “conhecimento científico” (Demo, 1995). Disputam-se paradigmas, por vezes com grande veemência. Na tradição modernista (positivista), conhecimento científico é resultado de procedimentos metodológicos estritamente formais, de teor lógico-experimental, mantendo-se a confiança analítica de poder desvendar a realidade até seu fim. Analisar significa decompor a realidade em partes sucessivas, descendo assim ao fundo dela, onde – espera-se – confluem ontologia e epistemologia: ao final, a realidade seria simples e teria explicação simples. A simplicidade da realidade é vista em seus códigos, como a tabela atômica, o genoma, a escala musical, o ordenamento digital, que admitem formalização matemática exata. O discurso modernista positivista aposta na descoberta da verdade, porque tem dela uma idéia linear, assim como o procedimento analítico seria linear.
Sob tal ótica, qualidade formal significa a aplicação rígida de procedimentos formais que redundam na descoberta de leis e regularidades invariantes, passíveis de controle e mensuração, inclusive de reteste contínuo. Alimenta-se visão de realidade unidimensional, tipicamente materialista, lógica e experimental, e que cabe com perfeição no método científico. Na verdade, este é que define o que é real, deixando de lado tudo que não caberia nele. Cultivam-se em grande estilo as “evidências empíricas”, como resultado de procedimentos de levantamento e regulação estatística, aceitando-se que, por obra da formalização, os dados “retratam” com fidedignidade a realidade pesquisada (Demo, 2006). Esta expectativa é tão forte que a tarefa da pesquisa acaba reduzida a procedimentos lógico-experimentais. Mesmo sendo muito reducionista esta visão, não cabe desconhecer seu êxito estrondoso na história eurocêntrica, eclodindo na “sociedade do conhecimento”, em especial com suas tecnologias inovadoras. Sua grande vantagem é pretender lidar com procedimentos seguros, testáveis, verificáveis, aparentemente capazes de estabelecer verdades definitivas. Este é o paradigma dominante na academia hoje, em especial nas ciências naturais. A elaboração teórica é vista como lide secundária ou como esquemas disponíveis conceituais que já não caberia discutir/refazer. A parte central está na produção de dados empíricos bem formalizados e, a partir deles, analisar avanços possíveis rumo a estágios mais aprofundados da realidade. Passo a passo, desvenda-se a realidade.
Tomando em conta uma dicção dialética, qualidade formal ganha outras dimensões, ainda que não seja o caso negligenciar a visão positivista, quando menos em respeito a seu êxito monumental. Em vez de contar com acertos crescentes e que um dia seriam finais – encontrar a verdade –, imagina-se que a realidade não é de todo devassável (Demo, 2002a), primeiro, porque não se reduz a entidade apenas lógico-experimental de teor linear, segundo, porque, trabalhando a ciência com objeto teoricamente construído à luz de hipóteses, toda pesquisa é uma interpretação entre outras possíveis, dependendo sumamente de seus pressupostos ou pontos de partida, terceiro, porque, não sendo nenhuma realidade propriamente evidente (é complexa e ambígua), todo discurso que se quer científico não consegue ser conclusivo, quarto, porque sendo toda teorização esforço de ordenamento formal, a ordem é da teoria, não da realidade. Um dos resultados é que estudamos as dinâmicas através de seus códigos (ou de procedimentos invariantes, repetidos): não estudamos o que é dinâmico, mas o que se repete na dinâmica. Se invertêssemos esta perspectiva, como sugere Prigogine (1996), a dinâmica é a constante, não estruturas fixas. A realidade decomposta em variáveis formalizáveis e manipuláveis é a realidade que cabe no método, não a realidade em sua dinâmica complexa não linear.
Qualidade formal não reflete, então, resultados indiscutíveis por conta do método taxativo. Antes, sinaliza processos dinâmicos, nunca conclusivos e definitivos, porque em constante formação, datados e localizados. Não se deixa de lado a face propriamente formal. Ao contrário, é fundamental para ordenar complexidades. Sendo, porém, a realidade dinâmica complexa não linear, ambivalente, todo esforço de formalização detém dimensões artificiais e nisto dissonantes, à medida que busca encaixar dinâmicas em códigos matemáticos, desfigurando as dinâmicas. Realidades instáveis são entendidas pela via da estabilização, como ocorre em experimentos de laboratório. No entanto, é redução grosseira tomar o que se repete como mais real. É apenas mais adaptado ao método de captação. Qualidade formal de processos precisa haver-se com dinâmicas que não podem ser completamente dominadas, contentando-se com aproximações sucessivas e rivais. Nenhuma teoria é conclusiva, não só porque nunca dá conta da realidade toda, mas igualmente porque não há como postular discurso final. Diante deste desafio, qualidade formal é conquista frágil e aberta de processos de argumentação, mantidos sempre discutíveis. “Ser discutível” admite duas acepções. Para visões modernistas, discutível é o conhecimento sem base, destituído de formalização necessária, rejeitado em testes. Uma teoria, um experimento não podem ser discutíveis. No fundo, buscam-se resultados indiscutíveis. Para visões dialéticas, discutível é a virtude de argumentos e fundamentações que se mantêm abertos à discussão, irrestritamente, brandindo a autoridade do argumento. Não cabem discursos dogmáticos, porque já não abrigam chance de revisão, criação, questionamento. Não se aplicam a teorias e pesquisas validades que não sejam apenas relativas, condizendo isso com as dinâmicas naturais e histórias, todas com prazo de validade.
Um discurso tem qualidade formal, primeiro, se for bem feito em seu ordenamento, concatenação, arrumação, sistematização, formulação, e, segundo, se for elaborado de tal forma a facilitar a discussão aberta e igualitária. Um texto bem feito é mais fácil e agradável de ser discutido. Cada argumento precisa manter-se de pé por si só, não por recurso autoritário ou artimanha. Uma das faces mais pertinentes é o cuidado com a fundamentação e que pode ser elaborada partindo de muitos horizontes: escudando-se em teorias existentes, em práticas recorrentes, em dados disponíveis ou construídos especialmente, definindo com esmero conceitos e categorias, em experimentos conduzidos com procedimentos acurados e transparentes, em proposições ao mesmo tempo bem redigidas e abertas. Fundamenta bem um discurso não só recurso à matemática, lógica, forma, mas igualmente a aproximação meticulosa de dinâmicas complexas e no fundo indevassáveis, através de elaborações mais flexíveis, sem incidir na ditadura do método. Fundamentar, porém, não é colocar concreto armado e indestrutível por baixo do discurso, mas elaborar formulações que se alimentam de validades relativas e, nem por isso, menos exigentes. Por ser relativa a validade, há que, tanto mais, cuidar dela.
Por ser discutível todo argumento, não conclui a discussão. Antes, a alimenta, mantendo o texto aberto a inovações sempre possíveis. Não existe o texto final, também porque não existe o inicial. Não é fixo. É nômade. Argumento discutível é aquele que continua aprendendo de outros argumentos, mesmo que se sinta seguro no que propõe. Discutível aponta, então, tanto para a capacidade de discutir, quanto de ser discutido, questionar e ser questionado. Permite consensos, ainda que frágeis, porque só pode haver consenso em torno de idéias discutíveis. As indiscutíveis já liquidaram a possibilidade de consenso negociado. Por serem os consensos compostos de idéias discutíveis, não são monolíticos e definitivos. Todo texto pode, sempre, ser revisto. Aqui, convém fazer uma distinção: existe o texto discutível por ser precário; e existe o texto discutível por ser qualitativo (Demo, 1999).
III. QUALIDADE POLÍTICA
Por qualidade política entendo o estilo de argumentação dinamizado por cooperações e rivalidades igualitárias, eticamente decentes e socialmente relevantes, com realce para a discutibilidade do discurso aberto entre os participantes. O texto não se impõe; apenas pode merecer respeito dos pares, por conta de sua argumentação e persuasão pertinente, seguindo a regra da fundamentação tão bem feita que possa sempre ser refeita. Aqui se reconhece a multiculturalidade do conhecimento científico, ou sua politicidade. A par de suas marcas formais absolutamente cruciais, o conhecimento é dinâmica social, uma das fontes mais proeminentes da gestação de oportunidades e da influência, desenhando um espaço de excitadas correlações de forças (Bourdieu, 1987; 1989; 1996). A politicidade, ao contrário do que quer o positivismo, não é contrabandeada para dentro do conhecimento, pois lá mora desde sempre, como sempre alegou Foucault (1971; 1979). Dinâmicas dialéticas são políticas de nascença. Depois de Prigogine, muitos diriam que isto vale também para a natureza, à medida que não se reduz a evoluções cegas, aleatórias, tangida de fora sem reação. A natureza é um espaço polarizado, complexo e não linear, marcado por bifurcações, diversidade, oportunidades, histórias irreversíveis, ambigüidades e ambivalências (Demo, 2002a), de tal sorte que, se, por hipótese, começasse de novo, não haveria qualquer condição de perfazer o mesmo caminho evolucionário. Claramente, conhecimento não se reduz a diatribes políticas: seria incongruente negar a marca formalizante.
Argumentar não se basta com apenas discursar em tom formalmente adequado. Como todo discurso, é feito no espaço polarizado das relações sociais, confrontando-se com expectativas diversificadas, evoluções rivais, alinhamentos comportamentais, influências e contra-influências de toda sorte (Gee et alii, 1996/2003). A retórica é um dos reconhecimentos mais antigos – desde os gregos – da politicidade do conhecimento, ao propor que não basta formalizar; é preciso convencer ou persuadir (Bogost, 2007. Fogg, 2003). A validade do conhecimento não depende apenas de sua estruturação lógico-experimental, porque, em sociedade, para algo valer carece ainda de reconhecimento e este não se orienta somente por formalizações metodológicas. É por isso que podemos ser convencidos daquilo que não tem base, nem mereceria esta atenção (Shermer, 1997. Andrew, 2009). Um caso típico: em geral a pesquisa acadêmica é muito reticente frente à “auto-ajuda” (Demo, 2005b), tanto porque não possui fundamentação científica suficiente, quanto porque se tornou espaço de “espertos” sem formação mínima, mas que sabem aproveitar-se da ingenuidade das pessoas. Mesmo assim, é a literatura que mais vende, porque sua validação não passa apenas por critérios formais, mas igualmente pelo reconhecimento do público. Por enquanto pelo menos, o público aprecia auto-ajuda e, em geral, diz que lhe é útil.
Percebemos aqui o lado sombrio da politicidade: produção de conhecimento para fins de manipulação, ou seja, usar o saber pensar para impedir o saber pensar dos outros. O’Connor (2001), ao discutir o “conhecimento da pobreza”, mostra com grande verve que, enquanto cresce o financiamento da pesquisa da pobreza, se multiplicam entidades e encontros internacionais, se publicam obras e levantamentos, proliferam propostas de gestão e mensuração, a pobreza como tal não dá sinais de retrocesso, em especial em sua face “relativa” (pobres comparados com os mais ricos) (Demo, 2007). A peso de muitos programas assistenciais (já nisto facilmente assistencialistas), tem diminuído a pobreza “absoluta” (pobres comparados consigo mesmos), contribuindo para isto também taxas expressivas de crescimento econômico (em particular na China e Índia) (The World Bank, 2005). O’Connor quer sugerir que a pesquisa da pobreza tende fortemente a ser bem mais interessante para pesquisadores e gestores, do que para os pobres, que continuam sendo apenas objeto de pesquisa. Certamente, não é o pobre que irá fazer pesquisa e teoria da pobreza, mas poderíamos esperar disso coisa bem melhor para os pobres.
No mundo virtual, em especial nos videogames, é comum o reconhecimento de que são “ideológicos” (Gee, 2003; 2007) também. Suas narrativas implicam posicionamentos sociais, modos de interpretação e hipóteses de trabalho que jamais escapam de contextos políticos, sem falar em jogos de guerra ou que combinam violência e sexo. Neles, pois, disputam-se formatos de sociedade e convivência, sentidos da vida, preferências comportamentais, apreços culturais. Isto torna os videogames, para além da diversão e do entretenimento, plataformas de reconstrução da vida em sociedade real e virtual. Em geral se alega que os “bons” videogames não apenas exercitam fluência tecnológica, por vezes em grau muito elevado. Também preparam para vida e se tornaram, para alguns teóricos, os ambientes mais promissores de aprendizagem (Prensky, 2001; 2006). Mesmo assim, correm o risco de produzir dependência (Clark & Scott, 2009). E aqui chegamos ao argumento de Paulo Freire: aprendizagem é dinâmica também política, porque neste processo se forjam cidadãos capazes de produzir alternativas históricas. Uma das dinâmicas mais importantes é a formação da autoria, através da qual se enaltece o sujeito, afastando-se a condição de objeto. Ao mesmo tempo, porém, a formação da autoria precisa ser conjugada com a autoria dos outros em condição igualitária, para que a autonomia frutifique em convivência, não em competitividade. Em parte, isto se fomenta nas discussões online que os jogadores sempre promovem, nas quais todos comparecem em condições igualitárias, procurando argumentar, compartilhar, aprender. Não faria sentido ver nos videogames apenas artefatos desarmados de diversão inconseqüente, até porque também podem ser destrutivos e provocar dependência (Sternheimer, 2003. Clark & Scott, 2009. Setzer, 2008; 2009).
A qualidade política dos textos pode ser apanhada, entre outras dimensões, em como se consegue validação e reconhecimento, em como se disputam espaços alternativos, em como as rivalidades se manifestam e são tramadas, em meio a ambigüidades evidentes. Primeiro, qualidade política não se refere apenas ao lado “bom” da coisa. Uma proposta maquiavélica pode deter grande qualidade política, se a entendermos como habilidade de se impor efetivamente, destruindo os adversários. Segundo, qualidade política carece sempre ser atrelada à ética, para que seja viável acenar com alternativas decentes. Entre tantos desafios, podemos realçar:
a) Ao questionar os outros, antepor o autoquestionamento, não só por questão lógica (a coerência da crítica está na autocrítica), mas mormente por questão ética igualitária: não poderia questionar bem, quem não se autoquestiona, na mais lídima tradição socrática (maiêutica);
b) Ao manejar a autoridade do argumento, inspirada na qualidade da fundamentação, manter sempre esta fundamentação aberta: precisa ser tão bem feita, que possa sempre ser refeita num contexto de diálogo aberto; continuar aprendendo pela vida afora é um modo de conviver com argumentos rivais, que não são estorvo e incômodo, mas alternativas possíveis;
c) Não adotar teorias como idéias fixas, unitárias e monolíticas; usá-las crítica e criativamente é a postura adequada, para fazer delas trampolins importantes da reconstrução própria, desde que esta também permaneça aberta; quem se alinha a teorias, as enrijece; em vez de serem expedientes de abertura da mente, a fecham;
d) Perceber que idéias críticas sempre são plurais; idéias monolíticas são imbecilizantes; não permitem discussão e compartilhamento;
e) Como toda verdade tem dono, é melhor ver nelas, como quer Habermas, apenas uma pretensão de validade; verdades mais verdadeiras são as plurais, aquelas que convivem com outras verdades, num mundo de muitas verdades;
f) Sendo as validades possíveis em sociedade e natureza apenas de teor “relativo”, valem, sim, porque não se vive em sociedade ao léu, de qualquer maneira, mas dentro de formatações socializadas e socializantes; todavia, não valem absolutamente, porque, no plano da existência, nada é absoluto; tudo tem prazo de validade, também nossas idéias e argumentos, inclusive nós mesmos;
g) Como convivência supõe consensos socializados e não consegue fugir de alinhamentos autoritários, é imprescindível manter os consensos em ambientes dinâmicos que facultem sua discussão e revisão permanente;
h) Como toda comunicação é estratégica, o intento de persuasão necessita de mão dupla para permitir que a habilidade de persuadir não exclua a de ser persuadido.
Entretanto, leve-se em conta que as dinâmicas complexas políticas não podem ser “resolvidas”, como se, com manejo cada vez mais intenso de conhecimento científico, um dia poderíamos a tudo simplificar e dominar, como sonhava o modernismo. Neste sentido, não existe consenso perfeito, comunidade plenamente satisfeita, realização pessoal e social consumada, texto final, discurso peremptório. A negociação, por mais brilhante que possa ser, permite acomodar rivalidades, mas não as extinguir. Aí vale principalmente a percepção do bem comum, em prol do qual se podem admitir concessões e renúncias. Isto é particularmente importante em textos coletivos, cuja autoria é distribuída e dispersa, implicando naturalmente acomodações. Em tais textos, vale mais a obra coletiva do que o brilho individual. O conhecimento como obra coletiva é um dos horizontes mais decisivos da qualidade política, seja para lhe retirar a pretensão de soberania e superioridade comum na cultura eurocêntrica, seja para abrir seu acesso a todos, mesmo que nem todos possam produzir conhecimento de qualidade elevada, seja para rever tradições modernistas ensimesmadas, seja para direcionar a produção das novas tecnologias para fins sociais, não apenas de mercado.
Em contextos modernistas persiste a vã esperança de aplacar todas as polêmicas por obra de procedimentos metodológicos objetivos formais, de validade universal e que permitiriam produzir, um dia, uma “teoria de tudo” (Gribbin, 1998). Ao fundo resiste uma crença em essência religiosa de encontrar a verdade. Estudos da mente humana, como regra, repelem esta expectativa, porque não vemos as coisas como são, mas como somos, dentro da percepção autopoiética (Demo, 2009). Ou seja, o conhecimento científico não trabalha com a realidade diretamente, mas com recortes dela, metodologicamente reconstruídos à luz de hipóteses de manipulação. Conhecimento é sempre, naturalmente, um procedimento interpretativo, mesmo quando embebido de matemática pesadamente (Besson, 1995. Lesh et alii, 2007). O que temos na mente não é cópia, retrato, reprodução da realidade, mas reconstrução mental auto-referente. Nenhuma teoria consegue ver tudo, também porque apanha suas faces ordenáveis, sendo ela mesma um discurso ordenado (Foucault, 2000). Esta é a tese da multiculturalidade, combatida pelo positivismo, mas que tem recebido forte apoio de pesquisas neuronais (Edelman & Tononi, 2000). Faz parte de nossa visão ver parcialmente, seletivamente e de modo auto-referente. Ao lado desta condição natural, acresce a condição política: vemos melhor o que nos interessa ver. É impossível, assim, construir consensos que não admitam polêmica, até porque, se não admitissem, não seriam consensos, mas artimanhas.
É o mesmo problema da formação da autonomia. Precisamos de muita engenharia pedagógica para formar, ao mesmo tempo, gente autônoma e solidária. Precisamos das duas virtudes, mas nem sempre andam lado a lado. Uma autonomia que fosse perfeitamente solidária, não seria propriamente autônoma. Uma solidariedade que fosse bem autônoma, já não seria suficientemente solidária. Chamamos a este tipo de dinâmica complexa não linear de unidade de contrários: uma unidade formada de componentes que não são unos. Não há aí “solução”, porque unidade de contrários não representa um problema, mas modo de ser e de vir a ser. Na visão modernista positivista as partes todas se encaixam e acabam perfazendo um todo uníssono. Na visão dialética, a condição complexa não linear não permite este tipo de completude. Dinâmicas são dinâmicas porque são incompletas. Dinâmica completa é contradição nos termos. Assim como não é possível satisfazer a um ser humano plenamente, de sorte que já não tivesse outros desejos, não é viável ensaiar verdades, felicidades, consensos plenos. Como sugere Gödel, nem a matemática é completa (Hofstadter, 2001).
Politicidade implica correlações de força que compõem, mal e porcamente, cooperações e rivalidades. Um ser humano completamente coerente deixaria de ser humano. Mesmo assim, esperamos alguma coerência. Alguma. Assim são os textos também. Sua qualidade política não está na assepsia artificial de peças perfeitas, mas na complexidade de seu tecido, na qual latejam dinâmicas incompletas e contrárias. É defeito? Em parte pode ser. Em parte é modo de ser, permitindo ser revistos, aperfeiçoáveis, também descartáveis, como nós mesmos. A beleza de um consenso é a capacidade de agregar vozes para compor um bem comum, desde que este bem comum não apague as vozes. Onde há muitas vozes, porém, há igualmente gritaria. De um lado, é imprescindível ter objetivo comum, para que se possa fazer história. De outro, não é menos fundamental poder reconstruir o objetivo comum, mantê-lo discutível, para que a história não se torne reprodutiva ou uma jaula. Sempre é fundamental recomeçar.
A discussão em torno dos paradigmas de vigência científica (Kuhn, 1975. Collins, 1998) representa, na prática, um dos maiores reconhecimentos da politicidade e multiculturalidade do conhecimento. Por ser feito em sociedade, não escapa de se encaixar em procedimentos institucionais, dos quais o mais comum é a “escola” (por exemplo, a Escola de Frankfurt). Falando-se de “escola”, admite-se que o processo de produção do conhecimento acaba penetrado de alinhamentos estabilizadores, formando uma referência que, advinda da mudança, agora resiste à mudança. Na escola procura-se menos inovar do que salvaguardar o patrimônio, em geral sob fortes lideranças. O que um dia foi, talvez, autoridade do argumento, agora se torna argumento de autoridade: fidelidade é mais importante que confronto. Aparecem lideranças e contra-lideranças, submissões e alinhamentos, porta-vozes e ventríloquos, que, a título de preservar as conquistas, no fundo as arrastam tanto mais rápido para o abismo. Não se brandem apenas argumentos, mas igualmente estratégias de ocupação de espaço, de caça a prestígio, de conquista de destaque, não sendo incomuns golpes baixos. Mas pode haver também o lado mais alvissareiro, quando uma escola se põe a consolidar conquistas importantes, agora institucionalizadas e disponíveis. A qualidade política de uma escola mantém-se, assim, sempre dúbia: ao guardar conquistas, se torna proprietária e já não pode mais ser inovada. A escola acaba, naturalmente, se esvaindo e pode mesmo desaparecer.
A ambigüidade das dinâmicas políticas pode bem ser visualizada nos sindicatos de professores, hoje considerados nos Estados Unidos a maior resistência a mudanças (Moe & Chubb, 2009). Em termos de cidadania organizada, possivelmente a mais expressiva sempre foi o sindicato, em particular na formação do que se chamou de welfare state. Colaborou decisivamente para questionar o mercado, impondo-lhe compromissos sociais fundamentais, como as leis trabalhistas e previdenciárias. Com o tempo, porém, como toda organização política, começaram a aparecer vícios, desde os privilégios dos chefes, até resistência a toda mudança. Nos Estados Unidos, os sindicatos docentes são o quinto maior doador de campanhas políticas, o que já bastaria para perceber o poder que têm. Todas as avaliações apontam para precariedades clamorosas nas escolas e no sistema educacional, tendo como resultado aprendizagem mesquinha dos alunos. Seriam necessárias mudanças profundas, em especial nos docentes, implicando formação mais acurada, atualização permanente em serviço, responsabilidade pela aprendizagem dos alunos, acompanhamento das novas tecnologias, a par de melhores salários. Em geral os sindicatos defendem apenas as remunerações e condições de trabalho, no sentido de manter o status quo favorável aos docentes. Apreciam somente mudanças que redundem na estabilidade dos docentes, valendo isto também para as novas tecnologias. Neste sentido, os sindicatos acabaram propondo um tipo segregador de cidadania, voltada para o próprio umbigo, sem, por exemplo, levar em conta o direito do aluno de aprender bem. Por certo, os sindicatos possuem sua razão: são comuns remunerações aviltadas, condições laborais indignas, pressões oficiais nem sempre razoáveis, avaliações que os transformam em “culpados”, etc. Ademais, é função deles defender os docentes. No entanto, não levam em conta o bem comum mais amplo. Será o caso condenar os sindicatos? Em absoluto. São uma das conquistas mais memoráveis da história recente. A ambigüidade de sua atuação é, em parte, apenas natural. Seria, porém, o caso discutir novas perspectivas, porque não é salutar deixar de aprender por conta de posições tidas como indiscutíveis.
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